Jaime Melo Baptista: Porque é importante a economia circular nos serviços de água?

A associação ambientalista Zero lembrou recentemente que a partir de julho passado a humanidade atingiu o limite de recursos disponíveis para este ano, mais cedo do que em 2016, quando esse limite foi ultrapassado em agosto. E adiantou que o último ano em que a humanidade respeitou o “orçamento natural anual”, em que os recursos existentes no planeta chegam para o ano inteiro, foi há quase 50 anos, em 1970. Portugal encontra-se no grupo dos países com uma pegada ecológica excessiva que contribui para esse desequilíbrio, devido essencialmente ao consumo de alimentos e à mobilidade.

 

O dia do ano em que os recursos se esgotam dá-nos um claro sinal da sobre-exploração do planeta, uma tendência que é urgente mudar para bem da Humanidade e da sua qualidade de vida. E a água é certamente um dos mais importantes recursos do planeta.

 

Temos inevitavelmente que evoluir para a economia circular, pois o modelo tradicional de extrair, transformar, consumir e rejeitar é incompatível com o desenvolvimento sustentado. Temos que conseguir crescimento e desenvolvimento económico sem consumo excessivo de recursos finitos, como a água. Há fortes razões ambientais, sociais e também económicas para evoluirmos nesse sentido.

 

Os serviços de águas (abastecimento de água e gestão de águas residuais e de águas pluviais) podem e devem ser motores da economia circular. Estes serviços já têm vindo a adotar tecnologias e práticas no sentido da economia circular, face a regulamentação mais exigente, a crescente inovação científica e tecnológica e também para responderem aos desafios das alterações climáticas e da urbanização. Contudo essa evolução tem sido condicionada pelo frequente conservadorismo deste setor monopolista, por uma regulamentação por vezes bloqueante e por condições de mercado pouco claras e incentivadoras.

 

Há que encontrar novos caminhos e procedimentos relativamente a água, aos materiais e à energia, que são indissociáveis, para aumentar a economia circular nos serviços de águas. Há que identificar incentivos regulatórios e de mercado que contribuam para aumentar e acelerar a economia circular na água. Respeitar os generosos limites do planeta é a única forma de garantirmos um futuro melhor para todos e respeitarmos verdadeiramente as próximas gerações.

 

É isso que se pretende discutir na 12ª Expo Conferência Água 2017, numa parceria entre a AboutMedia e o Lisbon International Centre for Water (LIS-Water).

 

Jaime Melo Baptista, engenheiro civil especializado em engenharia sanitária, é Investigador-Coordenador do LNEC, Presidente do Conselho Estratégico da PPA e Comissário de Portugal ao 8.º Fórum Mundial da Água 2018. Foi membro do conselho de administração e do conselho estratégico da IWA. Foi presidente da ERSAR (2003-2015), responsável pelo Departamento de Hidráulica (1990-2000) e pelo Núcleo de Hidráulica Sanitária (1980-1989) do LNEC, diretor da revista Ambiente 21 (2001-2003) e consultor. Foi distinguido com o IWA Award for Outstanding Contribution to Water Management and Science.

 

(Ana Santiago para o Ambiente Online, 30.10.2017)