Andrew McCarthy (OCDE) no Fórum de Resíduos:

Os impactos da transição para uma Economia Circular, que estão a ser estudados em detalhe pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), vão ser apresentados no 12.º Fórum Nacional de Resíduos por Andrew McCarthy. Em entrevista ao Água&Ambiente na Hora, Andrew McCarthy antecipa algumas reflexões sobre as oportunidades, mas também as ameaças deste novo modelo económico.


Como descreveria “o estado da arte” do economia circular nos países da OCDE?

A noção de Economia Circular e das políticas necessárias para a promover varia de país para país. É de salientar que houve um notável impulso legislativo nos últimos anos. Planos estratégicos de Economia Circular ao nível nacional foram implementados na União Europeia em 2015, na Finlândia, França, Países Baixos e Escócia em 2016 e na Eslovénia e em Portugal em 2017. Outros países estabeleceram políticas a nível nacional com nomes diferentes, mas objetivos bastante semelhantes. O caso do Japão, que adotou legislação fundamental para promover a reutilização de materiais, e o do plano estratégico dos Estados Unidos, que promove os materiais sustentáveis, são dois exemplos.
 
Em termos de progressos que impulsionem a circularidade, é difícil destacar os países de alto desempenho. Ainda estamos longe do consenso sobre quais as métricas mais adequadas e, em muitos casos, a informação necessária para estabelecer esses critérios não existe. É claramente necessário trabalho adicional nesta área.
 
Em termos mais gerais, alguns países têm sido bastante bem sucedidos em fechar os ciclos de materiais a jusante melhorando continuamente as taxas de reciclagem de muitos materiais. Menos progresso tem sido registado a montante em áreas como design de produto, prevenção de resíduos e a adoção de modelos de negócios circulares.

Que forças, fraquezas, oportunidades e ameaças identifica neste novo modelo de económico?
 
A transição para uma economia mais circular representa uma oportunidade para reduzir as pressões ambientais geradas pela atividade económica. Taxas de reciclagem mais altas, produtos mais duradouros e partilha de produtos existentes: todas estas atividades podem reduzir a extração de recursos e os impactos ambientais associados. Esses impactos são globais - emissões de gases com efeitos de estufa e a questão dos micro-plásticos nos oceanos - mas também locais – nomeadamente a poluição e a perda de biodiversidade que decorrem das atividades de extração de materiais.
 
O aumento da circularidade pode também gerar benefícios económicos. Os países com taxas de reciclagem mais altas serão capazes, em alguma medida, de mitigar as consequências económicas de qualquer disrupção que venha a acontecer nas cadeias de fornecimento de materiais considerados críticos. As políticas que abordam barreiras existentes no mercado para o uso eficiente de recursos e produtos podem ajudar a estimular a expansão económica e a criação de empregos.
 
Apesar destas oportunidades ambientais e económicas, a transição para a Economia Circular terá provavelmente também alguns efeitos colaterais. Poderá levar a mudanças na estrutura da economia com resultados potencialmente negativos para alguns setores e países com uso intensivo de recursos. A redução da procura de recursos naturais pode levar a perdas de empregos no setor da extração ou pressionar as receitas públicas nas economias ricas em recursos. Haverá também desafios a mais curto prazo: veja-se a disrupção na indústria de táxis e na aquisição de habitação que está ligada a uma tendência de partilha.
 
A Economia Circular pode ser também encarada como uma revolução digital? Em que medida?
 
É muito claro que a digitalização permitiu a adoção de certos modelos de negócios circulares. O modelo de partilha “peer to peer” assenta num conjunto de tecnologias digitais - a Internet, o smartphone - reduzem os custos de transação e os riscos de partilha de ativos. O fornecimento de produtos desmaterializados - e-booksstreaming de música, educação on-line, teleconferência - em vez dos mesmos produtos físicos, foi desencadeado por um conjunto similar de tecnologias.
 
Olhando para o futuro, a interação entre a conetividade melhorada, a tecnologia de sensores inteligentes, a manofatura aditiva (impressão 3D) e a inteligência artificial surgem como uma promessa de um uso mais eficiente dos recursos.

A monitorização em tempo real e a manutenção preventiva podem melhorar a vida útil e o desempenho operacional de muitos bens duráveis. O carpoolingurbano pode ser ainda muito impulsionado com reduções significativas no congestionamento do trânsito e na poluição do ar.
 
Até que ponto a Economia Circular pode prejudicar o emprego? Como pode esse impacto ser minimizado?
 
Estas não são perguntas fáceis de responder. A transição para uma economia mais circular criará empregos em certos setores e, ao mesmo tempo, eliminará alguns noutros setores. Há uma literatura emergente que dá algumas luzes sobre o provável efeito global recorrendo a modelos macro-económicos multissetoriais. Os resultados deste trabalho sãos limitados, mas tendem a indicar que o efeito líquido do emprego de uma transição para a economia circular é positivo, mesmo que alguns setores e regiões saiam prejudicados.
 
Sobre esta temática importa ainda salientar que os impostos sobre o uso de recursos ou materiais, que permitem reduzir outros impostos na economia, como os impostos sobre o trabalho, por exemplo, podem gerar efeitos mais desejáveis.


(in ambienteonline, 06/04/2018)