Relato de uma viagem de bicicleta por três continentes

Alteração de comportamentos também depende de quem decide

27.09.2013
Alexandre Páris é fundador do Projecto “0 Emissões” e, enquanto cidadão, partilhou na mesa redonda da 4ª Conferência da Mobilidade Urbana a experiência daquela que terá sido, até agora, a maior aventura da sua vida: uma viagem em bicicleta, com um amigo, de Lisboa ao Tajiquistão, na Ásia Central.

“0 emissões, 1 ano, 2 amigos, 3 continentes, 4 rodas” foi o nome que o engenheiro mecânico, de 30 anos, deu à aventura partilhada com Tiago Santos. Em 2009, os dois amigos fizeram a viagem de Lisboa até ao Tajiquistão, em bicicleta, com um objectivo concreto: provar que é possível atravessar três continentes libertando zero emissões de dióxido de carbono (CO2) e, desta forma, sensibilizar para o uso de um transporte acessível a qualquer pessoa e não poluente.

Alexandre Páris e Tiago Santos passaram por 13 países em três continentes (Europa, norte de África e Ásia). Durante 251 dias percorreram 12.681 quilómetros. A falta de um visto para a entrada no Paquistão, no Sul da Ásia, ditou o fim da viagem. Curiosamente, o Irão é o país que Alexandre Páris refere como tendo sido onde mais gostou de pedalar, “pela hospitalidade de todo um povo que gosta de receber e pelo facto de pensar que poderia ser um país perigoso e ser surpreendido pela positiva como um dos paraísos de quem gosta realmente de viajar”. 

Foi na Europa, mais precisamente na Grécia, que Alexandre e Tiago atravessaram o pior momento desta aventura quando, em pleno Inverno e sob 10 graus negativos, ficaram retidos num nevão que durou três dias. Ficaram “quase sem lenha para a fogueira e a comida a escassear”, conta Alexandre Páris, no blogue “2nomundo.com”, acrescentando que temeram que a viagem acabasse ali.

Para o fundador do Projecto “0 Emissões”, andar de bicicleta permite conhecer novas culturas e possibilita o contacto directo com as populações e as paisagens, ao contrário do automóvel, porque “ a velocidade é demasiado rápida para nos apercebermos do verdadeiro país que vemos pela janela.” A bicicleta possui ainda a vantagem adicional de não poluir.

Tiago Farias, do departamento de Engenharia Mecânica do Instituto Superior Técnico (IST), considera que os modos suaves, como andar a pé ou de bicicleta, “tão bem demonstrados pelo testemunho do cidadão Alexandre Páris”, promovem a partilha do espaço público, servem de ponte entre os diversos modos de transporte, mas só terão sucesso com uma alteração comportamental ao nível de quem gere, quem decide e quem usa a cidade diariamente.

O especialista, que na conferência realizada no Museu do Design e da Moda foi o moderador do painel “Inovação, Energia e Mobilidade, identifica como quatro temas cruciais para um futuro mais sustentável da mobilidade urbana: planear melhor as cidades, onde o conceito de bairro, de partilha e de proximidade terão de ser dominantes; gerir melhor as infra-estruturas disponíveis através de uma melhor integração dos diferentes modos de transporte; promover e adoptar tecnologias mais limpas e eficientes, e promover uma nova cultura face ao conceito de mobilidade e uso do espaço público.

“Se é possível varrer o mundo a pedalar, muito mais simples deveria ser percorrer as ruas de uma cidade diariamente”, conclui Tiago Farias.
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