Jaime Melo Baptista (Água): Dez oportunidades no pós-pandemia

18.06.2020

Dez oportunidades no pós-pandemia

 

Vivemos uma pandemia que tudo altera, e cujos impactos nos mais diversos setores de atividade são e continuarão a ser certamente muito grandes. As crises são acontecimentos perturbadores que requerem reflexão, redefinição de prioridades, redireccionamento do trabalho e readaptação dos modelos tradicionais, e por isso criam oportunidades. Também nos serviços de águas temos que aproveitar este contexto forçado de mudança e identificar as oportunidades que surgem, que resumiria em duas mãos cheias.

A primeira oportunidade é a de reafirmar a importância política dos serviços de águas. Estes podem constituir um fator essencial de proteção da saúde pública, quando disponíveis e adequados, ou, pelo contrário, podem ser um fator de transmissão de doenças. Felizmente em Portugal estes serviços são parte da solução da pandemia, e não parte do problema. Eles são essenciais, e esta verdade absoluta reafirma-se em situações de crise, como a que vivemos. Talvez não estejam na linha da frente do combate, mas estão na linha de apoio a todos os da linha de frente, como médicos, enfermeiros, bombeiros e outros serviços essenciais. É, pois, oportuno reforçar a perceção social da importância dos serviços de águas. É importante um renovado compromisso político, com redefinição de uma estratégia nacional afirmativa, integrada no contexto de economia verde, evitando o risco de desfocagem da atenção para outras áreas.

A segunda oportunidade é passar a ter uma visão mais alargada destes serviços. A atual pandemia dá um sinal claro de que o acesso aos serviços tem que ser acompanhado por boas instalações sanitárias, domiciliárias e em espaços públicos, facilitando a higiene individual. Devemos perguntar-nos porque ainda tantas habitações não estão satisfatoriamente equipadas com instalações de água, retrete e banho ou duche, porque não temos maior número de instalações sanitárias modernas e higiénicas em praças centrais, porque não encontramos solução digna para grupos vulneráveis ou marginalizados, populações sem residência fixa ou pessoas que vivem em áreas sem infraestruturas adequadas. É importante voltar a colocar nas nossas prioridades o H de WASH (serviços de abastecimento de água, saneamento e higiene), acrónimo da terminologia anglo-saxónica muito utilizado nos países em desenvolvimento. Temos que ser mais humildes, aceitando que a higiene merece uma atenção que não lhe temos dado.

A terceira oportunidade é a de melhorar a gestão destes serviços. A pandemia veio confirmar a importância de melhor gestão global, financeira, administrativa, técnica, comercial, operacional, de recursos humanos, de consumidores, ambiental e de segurança. Veio confirmar o teletrabalho como forma alternativa de funcionamento das organizações, através da generalização de meios digitais e telemáticos, a importância dos planos de contingência como instrumento de trabalho, o controlo rigoroso no tratamento da água e no teor de cloro, a importância da logística de fornecedores e prestadores de serviços, a importância do atendimento e pagamentos online, a importância da gestão e higienização dos espaços de trabalho e a oportunidade de reduzir elevados encargos com viagens, porque se pode funcionar à distância. Traz também uma oportunidade para melhorar o funcionamento da administração pública, nomeadamente com a introdução do teletrabalho.

A quarta oportunidade é de introduzir o conceito de “contas certas” nos serviços, que tenho ouvido nas intervenções da Secretária de Estado do Ambiente. É imperiosa e urgente a racionalização tarifária para promover uma recuperação gradual e tendencial de custos dos serviços, compatível com a capacidade económica da população. É essencial assegurar a geração de recursos financeiros, bem como aperfeiçoar a sua gestão, alocando-os onde proporcionem maiores mais-valias. É necessário saber gerir a alteração de consumos, com mais consumidores em casa, e com empresas a reduzirem ou encerrarem a atividade, afetando a sustentabilidade económica e financeira dos serviços, agravada com algumas isenções de pagamento que estão a acontecer. É necessário aperfeiçoar os mecanismos tarifários, para que a equidade e a solidariedade prevaleçam na distribuição dos custos pelos diversos utilizadores, e proteger os mais frágeis, face ao maior risco de pobreza.

A quinta oportunidade é de aproveitamento da transformação digital. É essencial integrar essa tecnologia emergente no setor. Ele precisa se reinventar em termos digitais, transformando todos os seus processos e modelos, com mudanças de tecnologia, cultura e operações e até de preocupações (ex. cibersegurança). A transformação digital representa uma oportunidade para as empresas se tornarem mais eficientes, mais capazes de recolher e analisar dados à distância e mais inteligentes na tomada de decisão e no relacionamento com os consumidores.

A sexta oportunidade é a de continuarmos o investimento em infraestruturas físicas. Há que continuar a estar atento à melhoria no acesso a estes serviços, à necessidade de melhoria da qualidade e, muito especialmente, ao aumento da resiliência dos serviços e sistemas. Há por isso que continuar a investir na construção e, especialmente, na renovação das infraestruturas e no aumento da sua resiliência. Devemos ter presente nestes investimentos as tendências da circularidade e as necessidades de coesão social e territorial e de resiliência.

 

A necessidade de aumentar a autossuficiência nas cadeias logísticas no setor, que se querem mais curtas, através da melhor utilização de recursos locais, deve ser capitalizada

 

A sétima oportunidade é a de desenvolvimento empresarial. A perceção da necessidade de aumentar a autossuficiência nas cadeias logísticas no setor, que se querem mais curtas, através da melhor utilização de recursos locais, deve ser capitalizada em termos de empresarialização. É importante desenvolver o tecido empresarial, nomeadamente pequenas e médias empresas, gerando novas atividades necessárias ao setor e criando emprego e riqueza. O desenvolvimento do tecido empresarial deve aproveitar as novas tendências de circularização da economia.

 

 

É necessário incentivar a inovação nos serviços de águas para responder aos novos desafios, aproveitando uma tendência para o reforço da cooperação internacional, em resposta a desafios comuns

 

 

A oitava oportunidade é a de desenvolvimento da inovação. É necessário incentivar a inovação nos serviços de águas para responder aos novos desafios, aproveitando uma tendência para o reforço da cooperação internacional, em resposta a desafios comuns. É necessário aproveitar, em benefício do setor, a dinâmica que vai existir em setores como medicina, saúde pública, biotecnologia, tecnologias da informação/comunicação e inteligência artificial. A inovação deve basear-se num referencial de prioridades definido através de reflexão a nível nacional.

A nona oportunidade é a de valorizarmos os nossos profissionais da água. É necessário aproveitar esta ocasião para reafirmação da importância dos profissionais da água, enquanto gestores e técnicos competentes, e incentivar a atração e a retenção dos melhores. É essencial um esforço de capacitação continuada de recursos humanos, cujas responsabilidades perante a sociedade se tornam crescentemente mais visíveis. Serão necessários mais especialistas em diversas áreas, nomeadamente gestão de contingências, implementação de novos modelos de trabalho, inteligência artificial, formação online, gestão de projetos transversais e sustentabilidade.

A décima oportunidade é a de aumentarmos a internacionalização e cooperação internacional. A diplomacia, no âmbito dos ODS, deve ter um papel mais relevante na defesa da paz, articulando os ministérios dos negócios estrangeiros, da água, da economia, das finanças e da saúde, pois a água é fator de paz ou de conflito, enquanto recurso, por vezes abundante, por vezes escasso. Sendo os serviços de águas um fator essencial ao desenvolvimento, a diplomacia deve ter um papel mais relevante na internacionalização das empresas do setor. É importante manter e intensificar a atual abordagem bottom-up na sua internacionalização, essencialmente de iniciativa empresarial, mas também uma nova abordagem top-down, essencialmente de iniciativa política, com elevado potencial multiplicativo para as empresas.

Como dizia Milton Friedman, “Somente uma crise, real ou percebida, produz mudanças reais. Quando essa crise ocorre, as ações tomadas dependem das ideias que existam disponíveis. Essa, acredito, é nossa função básica: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne o politicamente inevitável”.

 

Jaime Melo Baptista, engenheiro civil especializado em engenharia sanitária, é Investigador-Coordenador do LNEC, Coordenador do Lisbon International Centre for Water (LIS-Water), vogal do CNADS e Presidente do Conselho Estratégico da PPA e foi Comissário de Portugal ao Fórum Mundial da Água 2018. Integrou o conselho de administração e o conselho estratégico da IWA. Foi presidente da ERSAR (2003-2015), dirigiu o Departamento de Hidráulica (1990-2000) e o Núcleo de Hidráulica Sanitária (1980-1989) do LNEC, foi diretor da revista Ambiente 21 (2001-2003) e consultor. Foi distinguido com o IWA Award for Outstanding Contribution to Water Management and Science.

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