A eletricidade é mais necessária do que nunca: oportunidades e desafios da atual crise sanitária para o combate às alterações climáticas

26.03.2020

[Comentário de Fatih Birol, Diretor Executivo da Agência Internacional de Energia à crise pandémica que vivemos, editado pelo jornal Água & Ambiente]

 

Se dúvidas houvesse, a crise do coronavírus veio confirmar quão dependentes estão as sociedades modernas da eletricidade. Milhões de pessoas estão hoje confinadas às suas casas, recorrendo ao teletrabalho, a sites de comércio eletrônico para fazer as suas compras e a plataformas de streaming de vídeo para encontrar entretenimento. Um sistema de produção e distribuição de eletricidade fiável assegura o funcionamento de todos esses serviços, além de alimentar os frigoríficos, as máquinas de lavar e as lâmpadas que são parte essencial do nosso dia a dia.   Em muitos países, a eletricidade é fundamental para operar os ventiladores e outros equipamentos médicos nos hospitais que tratam o crescente número de pessoas doentes. Numa situação tão inquietante e em contínua evolução, a eletricidade também garante a comunicação de informações importantes entre governos e cidadãos e entre médicos e pacientes. 

 

Ao mesmo tempo que a crise do coronavírus nos recorda o papel indispensável da eletricidade na nossa vida, os últimos dados divulgados pela AIE indicam que a procura de eletricidade diminuiu cerca de 15% em muitas das economias que tomaram medidas de confinamento fortes, por força da paralisação de muitas empresas e, em particular, de muitas indústrias. Algumas dessas economias, como Espanha e Califórnia, estão entre as maiores produtoras de energia eólica e solar no mundo, pelo que a diminuição da procura de eletricidade deverá contribuir para aumentar a quota destas renováveis variáveis muito acima dos níveis habituais. Nestas circunstâncias alguns sistemas poderão passar a dispor de níveis de energia eólica e solar que, em condições normais, exigiriam outra década de investimento em renováveis. Esta conjugação de fatores oferece oportunidades únicas. É um momento importante para aumentarmos o nosso conhecimento sobre o funcionamento de sistemas elétricos mais limpos, incluindo sobre alguns dos desafios operacionais que políticos e reguladores terão que ultrapassar para garantir a segurança e fiabilidade destes sistemas.

 

"[Com a diminuição da procura] alguns sistemas poderão passar a dispor de níveis de energia eólica e solar que, em condições normais, exigiriam outra década de investimento em renováveis".


Mas a presente crise trás muitas outras oportunidades e desafios ao combate às alterações climáticas no sector da energia. Os planos e as estratégias para ultrapassar a crise económica que já se começou a fazer sentir deverão envolver um investimento massivo para impulsionar o desenvolvimento e é fundamental que o façamos bem, que aproveitemos a oportunidade para acelerar a transição para soluções de energia limpa e evitemos os riscos de retrocesso. A implantação e a integração de tecnologias de energia limpa – como a energia solar, a energia eólica, o hidrogênio, as baterias e as tecnologias de captação de carbono (CCUS) – devem ser uma parte central dos planos dos governos. Estas medidas são extremamente importantes e é crucial que os decisores políticos, os líderes empresariais e os investidores não se deixem distrair pelas condições voláteis do mercado criadas pela crise sanitária.

 

Como nota a AIE, os custos das principais tecnologias renováveis, como solar e eólica, são hoje muito mais baixos do que no passado, quando os governos lançaram pacotes de estímulo. E as tecnologias solar e eólica estão muito mais desenvolvidas. Em contrapartida, a captura de hidrogênio e carbono carecem de grandes investimentos para ganhar dimensão e reduzir os custos. Estes investimentos poderiam beneficiar dos (ainda mais) baixos níveis das taxas de juro e do apoio dos governos através de garantias e contratos que reduzissem os riscos financeiros envolvidos em projetos pioneiros.

 

" (...) aproveitemos a oportunidade para acelerar a transição para soluções de energia limpa e evitemos os riscos de retrocesso".


O momento que vivemos é um momento de teste ao compromisso de governos, empresas e cidadãos com o combate as alterações climáticas, à solidez deste compromisso em condições de mercado particularmente desafiantes.  O declínio acentuado do preço do petróleo pode minar as transições energéticas limpas, reduzindo o impulso para políticas de eficiência energética. Sem medidas dos governos, a energia mais barata leva os consumidores a usá-la de forma menos eficiente, reduz o apelo a comprar carros mais eficientes ou readequar casas e escritórios para economizar energia, comprometendo as metas climáticas internacionalmente assumidas. É fundamental que os governos continuem a implementar políticas de melhoria da eficiência energética, que criam empregos, reduzem as contas de energia e ajudam o meio ambiente, aliviando os orçamentos governamentais em favor de outras áreas como a educação ou a saúde.



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