Biomassa florestal não vai chegar para investimentos previstos e anunciados pelo Governo

04.06.2018

O Governo está a exagerar nas expetativas de uso de biomassa para produção de energia elétrica. Quem o diz é a associação ambientalista Zero, alertando que a biomassa florestal disponível não é suficiente para alimentar as novas centrais previstas.

 

A estimativa de produção anual de biomassa florestal residual (BFR) em Portugal varia entre os 2 milhões de toneladas e os 5,1 milhões de toneladas secas, sendo que deste último valor 1,4 Mton/ano e 1,1 MTon/ano, são provenientes de pinho e eucalipto, respetivamente.

 

Ora, o Governo português anunciou nos últimos meses um ciclo de investimentos em novas centrais dedicadas de biomassa e a possibilidade de conversão das centrais a carvão ainda em funcionamento para biomassa. Só que, de acordo com as contas da ZERO, as 18 centrais de biomassa, dedicadas ou em regime de cogeração, exigem uma quantidade de BFR na ordem dos 2 milhões de toneladas anuais para o seu funcionamento em pleno, valor que ultrapassará os 4 milhões de toneladas anuais caso se concretizarem todos os projetos previstos para instalação até 2019.

 

Este cenário poderá ser agravado no futuro, a concretizar-se a intenção anunciada pelo Governo sobre a eventual conversão da central termoelétrica do Pego a carvão para biomassa, a acontecer em 2021, e a possibilidade de efetuar a mesma conversão, ainda que de forma parcial, na central a carvão de Sines. Com base nos cálculos efetuados pela ZERO, a conversão da Central do Pego de 1,9TWh exigirá um fornecimento anual superior a 1 milhão de toneladas de biomassa florestal, levantando dúvidas sobre a eventual obrigatoriedade (ou não) de cumprir critérios de sustentabilidade que obriguem a abandonar a opção de BFR.

 

Num cenário otimista de disponibilidade total de BFR na ordem dos 5,1 milhões de toneladas/ano, o valor fica aquém das necessidades de consumo expectáveis em 2021, sem que tenha sido contabilizado as necessidades de indústrias da fileira florestal, como a  produção de painéis de madeira, produção pellets para aquecimento, entre outras. Só a produção de pellets tem um potencial instalado para produção de 1,3 milhões de toneladas anuais, tendo sido a segunda maior indústria utilizadora de pinho em 2016.

 

Mas os ambientalistas alertam ainda para o facto de uma parte dessa biomassa florestal residual não ser efetivamente aproveitada, devido fatores como a fraca acessibilidade e distância entre áreas florestais que impossibilitam que a matéria residual chegue a preços competitivos às centrais de biomassa, a baixa atratividade dos matos como matéria-prima para a produção de eletricidade, e ainda a importância deste recurso em áreas relevantes para a conservação e fornecimento de serviços de ecossistemas, como a prevenção da erosão.

 

O Plano Nacional para a Promoção de Biorrefinarias, aprovado em 2017, embora refira que se trata de uma estimativa conservadora, apresenta valores de BFR na ordem dos 3 milhões de toneladas/ano, dos quais 44% correspondem a resíduos verdes herbáceos e matos

 

Assim, a Zero apela à necessidade urgente de se efetuar uma verdadeira avaliação do potencial de biomassa residual florestal, que permita saber ao nível regional qual o potencial existente que não está a ser explorado, por forma a redimensionar o mercado energético com base neste resíduo.

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