Colunista Adérito Mendes (Água - Tendências): O que tem que ser tem muita força

04.11.2015

Este é o primeiro artigo de opinião sobre tendências no domínio da água que escrevo no quadro da nova grelha redactorial do portal Ambiente Online. Iniciei-o sem título e sem objecto definido, ou seja, com total abertura mental e sem constrangimentos.

 

Digo isto, porque tenho a sensação de que me posso perder facilmente no mar de temas e desafios que se colocam ao domínio da água no mundo, na Europa e em Portugal. Mas, também tenho presente que muitos foram os objectivos emocionantes e emocionados definidos com base em tendências irrefutáveis ou bem justificadas em cimeiras mundiais antes e depois de Rio Janeiro, Joanesburgo, Estocolmo, etc…. mas cujo balanço é desanimador para quem não quer esconder o sol com a peneira.

 

É mais simples discorrer sobre os problemas do mundo do que sobre os que nos estão mais perto, até porque é fácil encontrar publicados uma imensidão de textos sobre as perspectivas mundiais para a água, que percorrem o aumento da procura e da escassez, as alterações climáticas, a intensificação de registos de fenómenos extremos ou o sentimento de desigualdade entre países pobres e países ricos que os indicadores do desenvolvimento nos apontam.

 

É a disparidade desses valores que nos fazem perceber o sentido do dever, do querer e do poder, ou seja, não basta perceber e sentirmos o que devemos e queremos fazer é preciso ter meios para se poder fazer, o que obriga a fazer escolha de usos de meios e bens escassos.

 

Penso que a tendência na metade final desta primeira década do milénio e na primeira metade da próxima vai mostrar que a máxima “O que tem de ser tem muita força” faz todo o sentido e ganha cada vez mais significado entre nós na gestão dos recursos hídricos.

 

Esta previsão é tanto mais certeira quanto mais nos centrarmos no balanço do passado recente em que não só andámos a reboque das imposições consentidas da União Europeia como ficámos muito aquém das medidas propostas pelo país nos seus planos de gestão de região hidrográficas e plano nacional da água que era suposto serem os guias da política nacional da água.

 

Portanto, se nem conseguimos cumprir o que era exigido pela legislação nacional/europeia só nos resta conseguir meios para a cumprir, mesmo com atrasos, que nalgumas áreas são de décadas, veja-se o caso das águas residuais urbanas.

 

Como por todos é admitido o que ainda não se fez terá que fazer-se, custe o que custar, não só na qualidade físico-química das massas de água mas também no que toca ao regime económico-financeira na vertente da recuperação integral de custos, já para não falar dos caudais ecológicos que, a serem respeitados, implicam uma alteração profunda do regime de exploração dos aproveitamentos hidroeléctricos portugueses e espanhóis.

 

Só esta matéria dá pano para mangas pois que não só pode beliscar os interesses económicos das empresas mais poderosas do território ibérico como também exige acção enérgica e não dilatória da Comissão Luso-espanhola dos Rios Internacionais.

 

Portanto, o que prevejo para os próximos tempos é que os parcos recursos humanos e financeiros do Estado sejam concentrados em meia dúzia de desafios exigentes que até agora não fomos capazes de vencer.

 

Para esta meia dúzia falta apontar aquele que tem sido ostensivamente o mais descorado, a monitorização das pressões e dos seus impactos. Sei que já houve meios financeiros para isso mas que foram intensionalmente dedicados ao cumprimento simplista de prazos em que era necessário apenas mostrar serviço em que o acessório mascara o essencial e estruturante.

 

A adaptação às alterações climáticas vai estar na ordem do dia, não com projectos prosaicos, mas com programas de medidas que deem resposta ao que já se sente em várias regiões do país.

 

Claro que a gestão da água não cabe apenas à administração pública, quer seja estatal ou municipal ou regulatória. Cada vez mais, mas ainda insuficiente, as empresas, as universidades e o associativismo tem um papel liderante que urge assumirem.

 

Adérito Mendes, engenheiro civil do ramo de hidráulica, formado em 1976 pelo Instituto Superior Técnico, é pós-graduado em “Alta Direcção em Administração Pública” e especialista em “Hidráulica e Recursos Hídricos”. Foi Coordenador Nacional do Plano Nacional da Água – 1998/2002 e 2009/2011 e autor de dezenas de estudos, projectos e pareceres relacionados com recursos hídricos. Começou a carreira como técnico superior na Direcção Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos, em 1977, passou pela Direcção Geral dos Recursos Naturais. Além de profissional liberal na área de estudos, projectos e obras hidráulicas, foi Director de Serviços de Planeamento do Instituto da Água-1988-2011, assessor de serviços de Comissão Directiva do POVT-QREN e assessor da presidência da Agência Portuguesa do Ambiente. Exerceu ainda as funções de docente do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa-2002-2014.

TAGS: Colunista , Ambiente Online , Adérito Mendes , água , recursos hídricos , tendências , prioridades
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