Colunista Álvaro Menezes (Brasil): Saneamento! E depois do Coronavírus?

03.04.2020

Não há dúvidas que muita coisa mudará depois do passeio que o Coronavírus deu pela Terra, atingindo todos os países e promovendo um impacto socioeconômico de proporções nunca imaginadas, unicamente por uma causa que tem como fator de propagação a falta de hábitos regulares de higiene.

 

“Com a chegada do vírus, o setor de saneamento (…) virou destaque mais uma vez por suas deficiências urbanas, pois as rurais, de tão graves, sequer são lembradas”.

 

Com a chegada do vírus, o setor de saneamento por sua relação direta com a higiene coletiva e individual, virou destaque mais uma vez por suas deficiências urbanas, pois as rurais, de tão graves, sequer são lembradas. As áreas urbanas, por razões óbvias, são de fato as que apresentam os maiores problemas e desafios, guardando outrossim as maiores oportunidades de melhoria.

 

Do Rio de Janeiro, surgiram as notícias sobre falta de água para dar a impressão que a CEDAE é o CASO de ineficiência do setor e entre as companhias estaduais de saneamento. Na verdade a CEDAE é um dos CASOS de ineficiência crônica e/ou semicrônica, afinal desde as épocas do cólera, da dengue, da chikungunya e da zika, doenças mais famosas que as diarreias e outras de veiculação hídrica, se trata da realidade nas áreas urbanas nacionais como algo que pode ser posto apenas em planos.

 

Com a crise do Coronavírus que de fato provocará alteração em muitos planos de curto e médio prazo, vem à baila a provável dificuldade para que se façam investimentos. Além disso, o mantra de que o dinheiro privado salvaria o setor de saneamento fica prejudicado, porque sem liquidez no mercado, notadamente nos Bancos públicos, será difícil encontrar fontes de financiamento. Agrava-se a situação futura porque a capacidade de pagamento pelos serviços deverá estar abalada pelo desemprego e/ou perda de renda temporários de muita gente.

 

Voltando ao Rio de Janeiro, espelho atual da realidade em maior ou menor escala de todas as cidades brasileiras, deve-se observar que a cidade maravilhosa não é a única a possuir regiões onde regista-se falta de água. Além destas, há parcelas significativas de áreas urbanas onde não há ainda redes de água da concessionária ou existem abastecimentos “independentes” providos de vários modos, inclusive ilegais e irregulares.

 

Assim, diante do que ocorre hoje – em parte como repetição da época da cólera – e pelo aparente ambiente de compreensão técnica, social e econômica, não se pode insistir com as mesmas soluções de antes para salvar o ano de 2020 e as próximas décadas. A inovação estará na implementação de modelos de gestão que sigam uma meta nacional para o saneamento, sem necessariamente considerar que o primeiro passo é ter bilhões por ano para investir de modo geral.

 

A falta de água nas áreas urbanas tem como maior causa a ineficiência gerencial das concessionárias, a qual pode ser medida de modo objetivo pelas perdas reais e aparentes. São conhecidos exemplos locais de operadoras públicas e privadas que apenas gerenciando com eficiência os serviços, com consequente redução de perdas, conseguem levar água a todos os lugares onde tem rede, sem fazer bilionários investimentos. O reflexo da boa gestão também se dá na melhoria a curto prazo da receita.

 

Deste modo, o Governo Federal e seus muitos “gabinetes” de crise já deveria estar ativando o de saneamento, para que imediatamente se implantem modelos de gestão que possam dar resultados de curto prazo levando água onde já existem redes vazias, muito mais pela reabilitação de sistemas que por novas obras na maioria dos casos.

 

Os processos do PPI/BNDES, adaptados ao período pós-Coronavírus,  poderiam ser os exemplos iniciais deste processo de mudanças e adequação dos serviços de saneamento a critérios de qualidade que atendam todas as demandas das áreas urbanas. Imaginar que o modelo de gestão da maioria das Companhias Estaduais de Saneamento pode ser mantido ou reabilitado pode levar a perdas de tempo comprometedoras.

 

“(…) o saneamento pós-Coronavírus deverá se fundamentar em forte ambiente regulatório, modelos de gestão com maior participação da iniciativa privada e investimentos iniciais para promover a eficiência como uma ação gerencial permanente”.

 

Por fim, o saneamento pós-Coronavírus deverá se fundamentar em forte ambiente regulatório, modelos de gestão com maior participação da iniciativa privada e investimentos iniciais para promover a eficiência como uma ação gerencial permanente. Melhorada a gestão, com certeza, logo será possível fazer os investimentos necessários em água e esgoto.

 

 

Álvaro José Menezes da Costa, Engenheiro Civil, MSc em Recursos Hídricos e Saneamento, Consultor.

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