Colunista Ana Luís (Água - Gestão de Activos): A importância dos valores

30.12.2015

Nesta época de final de ano, é costume estabelecermos objetivos / propósitos para o ano seguinte - são as famosas “New Year resolutions”, que não raramente ficam por cumprir… às vezes por falta de força de vontade, é certo, mas outras vezes porque simplesmente os objetivos não foram definidos corretamente.

 

É do conhecimento geral que os objetivos devem ser SMART – eSpecíficos, Mensuráveis, Atingíveis, Relevantes, Temporalizáveis. É menos conhecida, porém, uma outra forma de classificação proposta por Ralph Keeney no seu livro “Value Focused Thinking”, segundo a qual os objetivos podem ser “estratégicos”, “fundamentais”, ou “meios” para atingir os anteriores.

 

São “estratégicos” os objetivos de fim-de-linha, que norteiam todas as decisões; estes são o “fim último” do nosso agir e, por isso mesmo, estão intimamente ligados a um conjunto de valores e deverão permanecer estáveis por longos períodos. Como tal, estes objetivos podem não ser mensuráveis nem quantificáveis, sendo nestes casos descritos por uma declaração ou afirmação. Concretizando na nossa vida pessoal, um objetivo estratégico poderia ser “ser feliz”.

 

São “fundamentais” os objetivos que estão imediatamente subjacentes a cada um dos objetivos estratégicos, i.e., aqueles cuja não realização põe em causa os objetivos estratégicos. Estes objetivos fundamentais devem ser quantificáveis, e servem, muitas vezes, para definir / concretizar os objetivos estratégicos. Um exemplo associado ao objetivo estratégico “ser feliz” poderia ser “ter uma base de subsistência mínima”.

 

Finalmente, os “meios” são isso mesmo – objetivos intermédios para que se possam concretizar os “fundamentais” e, logo, os “estratégicos”. São meios para se atingir o fim, podem mudar em cada ano e devem ser SMART. Um exemplo para viabilizar os objetivos anteriores poderia ser “encontrar um emprego”.

 

Transpondo para o ambiente corporativo, e tomando como exemplo uma empresa de abastecimento de água, um objetivo estratégico seria “fornecer água com fiabilidade adequada”, o qual teria associado o objetivo fundamental “nº roturas inferior a x / ano” e um dos meios “reabilitar xx km de rede”.

 

Será a classificação proposta por Keeney um mero jogo de palavras e conceitos que nos ajudam a “arrumar ideias”? A mim parece-me ser muito mais do que isso. Não é por acaso que a norma ISO 55000, para certificação de Sistemas de Gestão de Ativos, refere explicitamente que as quatro componentes mais importantes destes sistemas são a Política, os Objetivos, o Plano Estratégico de Gestão de Ativos e os Planos de Ativos.

 

De facto, quando confundimos os meios com os fins, facilmente nos perdemos na “folha” sem nos darmos conta da “árvore” ou da “floresta”. Resultam, por isso, abordagens de gestão fragmentadas, em que as decisões são norteadas por respostas a problemas avulsos (alternativas) ao invés de serem enquadradas no amplo chapéu formado pelos objetivos estratégicos da empresa (valores). Keeney chama à primeira forma de atuação “alternative focused thinking”, em contraponto ao “value focused thinking”. 

 

Por outro lado, quando sabemos para onde queremos ir (o “fim último”) podemos, desde o ponto onde nos encontramos, traçar o nosso rumo. E, parafraseando S. Tomás de Aquino, “mais vale um passo ridículo na direção certa, do que um passo de gigante na direção errada”.  

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, desde 2008, responsável pela Unidade de Planeamento de Ativos da Direção de Gestão de Ativos, e entre 2010 e 2014 coordenou o GAC – Grupo para o estudo das Alterações Climáticas da EPAL. A autora escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.

TAGS: Opinião , Ana Luís , água , gestão de activos
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