Colunista Ana Luís (Água - Gestão de Activos): Mas o que é, afinal, a Gestão de Ativos?

23.11.2015

Há uns tempos, estive numa reunião onde alguém perguntava: “se não é Manutenção, se não é Operação, se não são as Obras… o que é, ao certo, a Gestão de Ativos?”. Noutra ocasião, ouvi qualquer coisa como isto: “no limite, todos nós fazemos Gestão de Ativos!”.

 

Estes dois episódios são reveladores de que ainda persistem muitas dúvidas em torno do que é e para que serve, exatamente, a Gestão de Ativos. Convenhamos que citar a definição clássica de que a Gestão de Ativos é “um conjunto de processos e práticas que visam atingir o equilíbrio entre o Risco, o Custo e o Desempenho dos ativos ao longo do respetivo ciclo de vida” poderá não ser muito elucidativo.

 

Talvez ajude, então, atentarmos nos diversos níveis a que a Gestão de Ativos se realiza. No nível Operacional, a Gestão de Ativos faz-se no dia-a-dia e, efetivamente, pelas áreas das Obras, Manutenção, Operação, etc., em todas as decisões que são tomadas.

 

No nível Tático, em que tipicamente se pretende responder às perguntas “o que vamos fazer com cada um dos nossos ativos nos próximos 3 a 5 anos: Reabilitar? Manter? Desativar?”, a complexidade da decisão já envolve um olhar transversal e abrangente, bem como uma análise cruzada de informação proveniente não só das áreas operacionais como também das áreas financeiras (que compreende, entre outras, a componente da regulação económica).

 

Justifica-se, por isso, a criação de uma estrutura autónoma, não absorvida pelos problemas do dia-a-dia relacionados com os ativos, capaz de promover a utilização de ferramentas de apoio à decisão e de conciliar as (por vezes contraditórias) visões detidas pelas diferentes áreas operacionais.

 

Finalmente, no nível Estratégico, a complexidade das decisões dá um salto ainda maior, já que um Plano Estratégico de Ativos (ou Plano Diretor) deverá estar em perfeito alinhamento com a estratégia da empresa para cumprir os seus objetivos corporativos no longo prazo (25 a 30 anos). Assim, e não obstante ser crucial o envolvimento das áreas operacionais, parece justificar-se a existência de uma Gestão de Ativos que promova a articulação entre todas estas áreas e as áreas de Planeamento Estratégico da empresa.

 

Dito isto, importa lembrar que a resistência à mudança é uma característica natural do ser humano, e que, como tal, a criação ou existência de uma área de Gestão de Ativos poderá causar alguma apreensão entre as áreas mais tradicionais.

 

Preocupante será se, ao fim de algum tempo (que poderá ir de alguns meses até alguns anos, dependendo do estágio em que a empresa se encontra), essa apreensão persistir - pois se a Gestão de Ativos cumprir a sua função, os benefícios para a empresa e até para as restantes áreas operacionais falarão por si. 

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, desde 2008, responsável pela Unidade de Planeamento de Ativos da Direção de Gestão de Ativos, e entre 2010 e 2014 coordenou o GAC – Grupo para o estudo das Alterações Climáticas da EPAL. A autora escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.

TAGS: Opinião , Colunista Ana Luís , Gestão de Activos
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