Colunista Ana Luís (Água - Gestão de Activos): O maestro

28.01.2016

Apesar de desde sempre se ter gerido (melhor ou pior) os ativos infraestruturais dos sistemas de abastecimento e saneamento de água, a Gestão de Ativos, enquanto disciplina estruturada, tem apenas cerca de 30 anos. Fortemente impulsionada por países como a Austrália, Nova Zelândia ou Reino Unido, a Gestão de Ativos tem-se vindo a afirmar como filosofia de gestão à escala global. A norma ISO 55000, lançada há apenas dois anos, está já entre as normas ISO mais populares!

 

O que traz de especial, então, esta disciplina? “Gera valor”, “alinha as práticas operacionais com a gestão de topo”, “olha para os ativos no horizonte do seu ciclo de vida”, poderiam ser algumas das respostas. A que eu prefiro, no entanto, é: “articula as várias dimensões inerentes à gestão dos ativos” – pois é essa articulação / integração que permite gerar valor para a empresa, acionistas e clientes, alinhar as práticas e ter uma visão holística dos ativos. E que dimensões são essas que necessitam ser articuladas?

 

Desde logo, a informação associada aos ativos. Não se pode gerir bem o que não se conhece, nem otimizar o que não é medido (no sentido lato da palavra). Acredito que uma das razões para a Gestão de Ativos ter surgido há apenas 30 anos tenha precisamente a ver com os desenvolvimentos registados na área dos sistemas de informação (ex.: sistemas de informação geográfica), os quais permitem dispor de informação estruturada e passível de ser visualizada e analisada. Paradoxalmente, o problema mais frequente neste domínio, hoje em dia, não se deve a falta de tecnologia, mas a alguma relutância em partilhar informação. É necessária uma mudança cultural para que se quebrem os “silos” e se passe a trabalhar numa lógica de empresa, sendo este um dos papéis do gestor de ativos.

 

É necessário também promover a integração de pessoas. Tradicionalmente, o pessoal mais técnico não se preocupa muito com o “mundo” das finanças. Como tal, creio que uma das vantagens de se designarem as infraestruturas por “ativos” é precisamente a de lembrar aos técnicos e engenheiros que essas infraestruturas onde intervêm a nível de manutenção, reabilitação, etc., constituem os ativos da empresa, e que portanto todas essas atividades têm um impacte grande na sua sustentabilidade económica e financeira. Por outro lado, aos financeiros falta muitas vezes sensibilidade para a realidade prática dos ativos, competindo ao gestor de ativos alertar, por exemplo, que determinados cortes nos custos operacionais ou de investimento poderão vir a ter consequências ao nível do desempenho dos ativos a curto, médio ou longo prazo.

 

Poderia aqui deixar muitos outros exemplos da necessidade de uma gestão integrada dos ativos. No entanto, gostaria antes de propor um exercício que preparei recentemente para uma formação em gestão de ativos: 1º) aceda a https://www.youtube.com/watch?v=Yq47cKuPHKs e veja como pode soar bem um trabalho feito individualmente; 2º) veja em https://www.youtube.com/watch?v=wpFQLw5_N2o o que pode resultar quando muitos “bons trabalhos” individuais não estão articulados; e 3º) saboreie em https://www.youtube.com/watch?v=jHfXaYwEwng o resultado de quando existe essa articulação – atente, principalmente, na figura do maestro (ou será do gestor de ativos?) - porque uma imagem e um som valem mais do que mil palavras…

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, desde 2008, responsável pela Unidade de Planeamento de Ativos da Direção de Gestão de Ativos, e entre 2010 e 2014 coordenou o GAC – Grupo para o estudo das Alterações Climáticas da EPAL. A autora escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.

TAGS: Opinião , Ana Luís , água , gestão de activos infra-estruturais
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