Colunista Ana Luís (Água-Gestão de Ativos): Zelar pelos dois (Água e Energia)

28.07.2017

Provavelmente todos nós já nos deparamos com aquele desafio clássico “se fosse para uma ilha deserta e pudesse transportar apenas uma mochila, o que levaria consigo?”

 

Aplicado à Gestão de Ativos, este desafio não deixa de ser interessante. Talvez ajude lembrar que a Gestão de Ativos tem uma missão bem definida: criar valor, gerindo riscos e evitando custos desnecessários. E fá-lo mantendo permanentemente um olhar transversal e cruzado sobre as funções “core” das diferentes etapas do ciclo de vida dos ativos: planeamento – aquisição/construção – operação/manutenção – desativação.

 

Vamos então começar a encher a mochila. Sem dúvida que o conhecimento e caraterização dos ativos não poderia ficar de fora. Também o apoio ao planeamento de investimentos e de manutenção com base no risco (O ponto certo, recordam-se?) teria que ir para dentro da mochila.

 

Mas há algo que, de tão evidente em termos de custos evitados, por vezes escapa ao olhar perscrutador de quem anda à procura do que levar na mochila: o combate às perdas de água. Já menos evidente, mas o equivalente nos sistemas de saneamento, é o combate às afluências indevidas. De facto, e para além do benefício ambiental direto, cada metro cúbico de água que não se perde corresponde a um metro cúbico que não é captado, tratado ou elevado (com a inerente poupança em termos de custos de reagentes e energia); corresponde a dimensionamentos do sistema com diâmetros (logo, custos) inferiores; corresponde a evitar ou minimizar a necessidade de construção de novas captações em caso de escassez de água – sombra que, infelizmente, paira no ar este verão… e o mesmo se aplica às afluências indevidas nos sistemas de saneamento.

 

Mais ainda: não é apenas pela capacidade de evitar estes custos que o combate às perdas e às afluências indevidas é matéria-prima da Gestão de Ativos. É também porque este combate só se faz cruzando o tal olhar (e esforços) sobre a atuação dos intervenientes nas diferentes fases do ciclo de vida, com especial ênfase para a fase de operação/manutenção – recorrendo-se a dados e ferramentas tão diversos como modelação hidráulica, registos de faturação, medição de pressões, medição de caudais, etc.; e olhando não só para o ativo individualmente mas também para a forma como este interage com os demais, i.e., numa ótica de (sub)sistema.

 

Na prática, Gestão de Perdas e Afluências recaem no domínio da passagem de uma lógica de Eficácia (abastecer água; recolher e tratar água residual) para uma lógica de Eficiência (fazê-lo na medida do estritamente necessário), que não é mais do que o paradigma subjacente ao trade-off “Desempenho – Custo” da Gestão de Ativos.

 

E será que, no domínio da Eficiência, também fará sentido equacionar colocar na mochila a Gestão de Energia? Certamente que sim. O paralelo com a Gestão de Perdas e Afluências é claro, embora nem sempre o mesmo surja espontaneamente: energia poupada representa um custo evitado direto; e uma gestão eficiente de energia pressupõe, mais uma vez, recorrer “a dados e ferramentas tão diversos como modelação hidráulica, registos de faturação, medição de pressões, medição de caudais, etc.; e olhando não só para o ativo individualmente mas também para a forma como este interage com os demais, i.e., numa ótica de (sub)sistema”…

 

Um outro aspeto a assinalar é a relação de interconetividade entre estas vertentes (a qual, aliás, começa a ser bastante notória em algumas iniciativas do LNEC): redução de perdas e afluências geralmente representa uma diminuição direta na fatura energética; por outro lado, redução de consumo energético, quando visto numa ótica de sistema, pode também induzir uma diminuição de perdas, se tal implicar, por exemplo, reduzir pressões.

 

Caro leitor: que nos sistemas de abastecimento é possível armazenar energia através da altura da água nas albufeiras, já é sobejamente conhecido… procurei, no entanto, mostrar que o nexus água – energia em sistemas de abastecimento e saneamento vai muito para além disso. E, também, que este ainda cabe na mochila da Gestão de Ativos.

 

Boas férias!

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, atualmente, a responsável pela Direção de Gestão de Ativos da EPAL. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.

TAGS: água , gestão de ativos
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