António Sá da Costa: As centrais renováveis e a prevenção e combate aos incêndios florestais

27.07.2017

Já passaram quase dois meses sobre os fatídicos incêndios que ocorreram na zona de Pedrogão Grande. Já muito se tem escrito sobre as causas, o que se fez menos bem e que é preciso identificar e melhorar, tanto no que respeita às ações durante o combate ao incêndio, como também no que respeita aos planos de prevenção.

 

Sempre defendi, e pratiquei, o “mais vale prevenir do que remediar” e não o “depois de casa roubada trancas à porta”. Que a floresta deve ser ordenada e cuidada todos sabemos. Mas uma coisa é dizer outra é fazer, em especial quando para fazer é preciso uma visão e um plano estratégico, determinação, organização e, acima de tudo, vontade de fazer e de comportar os custos correspondentes.

 

Se trago este tema para este artigo de opinião é porque pretendo falar de um fator que não foi valorizado, e provavelmente muito poucos repararam nele, mas que eu acho que vale a pena salientar a todos os leitores e interessados, embora tenha consciência de que é pena que este artigo não seja lido por pessoas que estão sempre a condenar as centrais eólicas.

 

A zona por onde o incêndio de Pedrogão se espalhou encontra-se bordejada por várias centrais eólicas e, por coincidência ou não, o fogo não atingiu os aerogeradores. Aliás a zona destas centrais até funcionaram, aqui e ali, como zonas tampão, evitando a propagação das chamas. Julgo não ter sido por sorte, mas sim pelo facto dessas zonas estarem limpas, vigiadas e possuírem bons acessos. Relembro que, as empresas proprietárias dessas centrai eólicas mantêm, a suas expensas, em bom estado de conservação, os acessos e as zonas circundantes das torres das centrais eólicas, mesmo aqueles caminhos “de terra” que são públicos. Já o mesmo sucedeu aqui há uns anos aquando do grande incêndio na serra do Caramulo.

 

É um dos benefícios que estas centrais aportam ao ordenamento do território, que não é devidamente ponderado no processo de Avaliação de Impacte Ambiental a que são sujeitas antes de receberem a licença, mas é uma contribuição preciosa para aqueles que combatem os incêndios.

 

Também as linhas elétricas que ligam estas centrais eólicas à rede, com faixas de proteção com larguras de 25 a 62.5 m, consoante a tensão das linhas, podem trazer esta mais‑valia para o controlo e combate aos incêndios quando devidamente limpas, pois também atuam como corta-fogos.

 

Muitas vezes os Promotores gostariam de asfaltar as partes críticas dos acessos, zonas de maiores inclinações e curvas com grandes declives por exemplo, mas esbarram na vontade e política das Autoridades Ambientais que não autorizam. Penso que seria muito benéfico que elas permitissem alguns asfaltamentos, pois se assim fosse facilitaria o combate ao incêndio, além de diminuírem significativamente o custo de manutenção aumentando a facilidade de acesso no combate aos incêndios, mas as comissões de avaliação ambiental não o têm permitido, nem têm mostrado sensibilidade para atender a esta realidade.

 

Também veio a terreiro que o produto das limpezas das florestas pode ser usado em centrais de biomassa, facto indesmentível, mas a questão é de que esta tecnologia tem custos de produção de eletricidade muito elevados pelo que a sua competitividade no setor da eletricidade só se torna viável, desde que na sua cadeia de valor se criem outras sinergias na economia portuguesa, como seja a utilização de vapor do processo ou a sua justa valorização e contributo que elas proporcionam à limpeza e conservação de manchas florestais, que de outra maneira ou não seria feito ou tem encargos muito elevados.

 

Esta questão foi rapidamente percebida, e bem, pelo atual Secretário de Estado da Energia que mesmo anteriormente ao incêndio de Pedrogão já tinha tomado iniciativas tendentes ao lançamento de concursos para a construção de mais centrais a biomassa. É claramente percetível que as centrais a biomassa, dedicadas ou de cogeração, aportam outros benefícios para a economia para além da produção de eletricidade, os quais necessitam, pois, de ser corretamente incorporados para proporcionar a justa remuneração a estas centrais.

 

Também existem centrais de outras tecnologias que precisam de apoio em fases iniciais, e não me refiro nem às novas centrais eólicas, nem às novas centrais solares que já usam tecnologias ditas maduras. Algumas precisam de apoio durante uma fase inicial, mas outras como as de biomassa esse apoio deverá perdurar durante toda a vida destas centrais, pois este apoio é bem empregue e evita custos maiores ao País.

 

Precisamos de todos os recursos naturais e renováveis de que dispomos para gerar eletricidade renovável, para bem de Portugal, da sua economia, das populações e do ambiente, nunca podendo esquecer que:


Portugal precisa da nossa energia.

 

António Sá da Costa é presidente da APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis e Vice-Presidente da EREF – European Renewable Energy Federation e da ESHA – European Small Hydro Association. Licenciou-se como Engenheiro Civil pelo IST- UTL (Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa) (1972) e tem PhD e Master of Science pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology (USA) em Recursos Hídricos (1979). Foi docente do IST no Departamento de Hidráulica e Recursos Hídricos de 1970 a 1998, tendo sido Professor Associado durante 14 anos; tem ainda leccionado disciplinas no âmbito de cursos de mestrado na área das energias renováveis, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre; Exerceu a profissão de engenheiro consultor durante mais de 30 anos, sendo de destacar a realização de centenas de estudos e projectos na área das pequenas centrais hidroeléctricas; Foi fundador do Grupo Enersis de que foi administrador de 1988 a 2008, onde foi responsável pelo desenvolvimento de projectos no sector eólico e das ondas e foi Vice-Presidente da APE – Associação Portuguesa da Energia de 2003 a 2011.

TAGS: biomassa
Vai gostar de ver
VOLTAR