Colunista convidada Ana Paula Teixeira (Água): Homens/ hora - uma questão de números

14.06.2017

A reorganização do setor sugere uma dimensão mínima (100.000 hab.) que permitirá às Entidades Gestoras ter escala, sustentabilidade técnica, económica e financeira para poderem prover uma gestão sustentável e eficiente das infraestruturas. Mas este número, só por si, diz muito pouco das potencialidades de um sistema, seja ele de água, de saneamento ou misto.

 

Estamos a falar de alta ou de baixa? Qual é a área abrangida, e o número das infraestruturas? (ETAR, ETA, EE, Reservatórios) E o estado de conservação, e o nível de automação? E a distância média entre elas? E a orografia do território?

 

Todas estas questões precisam ser formuladas, analisadas e respondidas antes de estruturar atividades e processos e afetar os necessários meios técnicos e humanos.

 

Há um aspeto crucial, que pode determinar o sucesso ou insucesso de um determinado modelo de gestão, independentemente da dimensão da EG e da sua capacidade de financiamento, são os meios humanos afetos às atividades, estamos a falar de homens/hora (H/h). Foi com muito agrado que ouvi, muito recentemente, o Senhor Ministro do Ambiente afirmar que independentemente do modelo de gestão adotado, não se podem retirar H/h da rua. Esta afirmação, além de revelar um conhecimento profundo do setor e das suas especificidades, revela uma grande sensibilidade para aquilo que é o trabalho, muitas vezes árduo, das equipas de terreno e a importância que o mesmo tem na cadeia de valor (geração de) das EG dos serviços de água e saneamento.

 

É necessário conhecer os ativos.

 

Só podemos operar bem, o que conhecemos bem, e conhecer pressupõe ir junto do objeto sobre o qual pretendemos ter saber. Para conhecer os ativos é preciso ir junto, olhar, recolher dados de uma forma organizada e sistemática, para poder tomar a melhor decisão -uma decisão informada-, numa ótica de melhoria contínua e otimização de processos. É sobre este trabalho, que não se pode suprimir ou escamotear, que assenta toda a atividade desenvolvida pela EG, desde logo o planeamento dos investimentos necessários para assegurar o nível de atendimento e a qualidade de serviço pretendidos.

 

Apesar da evolução que se tem verificado, nos últimos anos, relativamente ao indicador -adequação dos recursos humanos-, o RASARP2016 ainda faz notar a necessidade de melhorar este indicador, em especial nos serviços em baixa, nas áreas predominantemente urbanas.

 

Recentemente, tive oportunidade de assistir a uma apresentação da Aarhus Water, um caso de sucesso da indústria da água, na Dinamarca. No decorrer da apresentação, o indicador que imediatamente despertou a minha atenção, foi precisamente o de recursos humanos afetos ao sistema, 5,6 (nº/106m3.ano), 1,6 acima do limite superior, do intervalo de referência para a qualidade de serviço boa, em área predominantemente urbana, em uso pela ERSAR.

 

Ana Paula Teixeira é Mestre em Engenharia e Gestão de Tecnologia (2000, IST). Em 2002 integrou os quadros da SimTejo - Saneamento Integrado do Tejo e Trancão, onde participou em vários projetos nas áreas de operação de sistemas de tratamento de águas residuais, planos de operação e manutenção, modelação de drenagem urbana, reutilização de águas residuais, otimização energética de sistemas de tratamento biológico, indicadores de desempenho-Past21. Cooperou com a ANEQP no desenvolvimento dos perfis profissionais e referencial de formação de operador e técnico de ETA/ETAR. Em 2015 integrou os quadros da AdLVT. Desenvolve atualmente atividade na Direção de Gestão de Ativos da EPAL – Departamento de Gestão de Perdas e Afluências indevidas. É presidente da SC2 da CT90*. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.


*A CT 90 é o órgão técnico que visa a elaboração de documentos normativos e a emissão de pareceres normativos no domínio dos sistemas urbanos de água, tendo sido criado em 1990 pelo IPQ. A subcomissão 2 (SC2) – Sistemas de águas residuais acompanha o trabalho desenvolvido no âmbito dos comités técnicos europeus com atividade relevante para os sistemas urbanos de água CEN/TC165).

TAGS: Colunista convidada , Ana Paula Teixeira , água , reorganização do setor
Vai gostar de ver
VOLTAR