Colunista convidada Ana Paula Teixeira (Água/Energia): Wastewater to energy

16.11.2017

A disciplina do tratamento das águas residuais começou com o objetivo concreto de sanear as águas residuais urbanas para as devolver ao meio recetor em condições tais que não comprometessem o equilíbrio dos ecossistemas e a qualidade das massas de águas. E nesta premissa foi-se infraestruturando o país, de Norte a Sul, do litoral ao interior com ETAR’s que respondessem às exigências regulamentares da qualidade da água dos meios recetores, das diretivas europeias, (91/271/CEE) e do direito interno (DL 152/97 e DL 236/98).

 

O intenso período de investimento, deu os seus frutos e atualmente o país tem uma taxa de cobertura de recolha e tratamento de águas residuais próxima dos objetivos traçados, com níveis de cumprimento muito bons e uma evolução muito positiva na qualidade das massas de água.

 

E podíamos ter a veleidade de pensar, o período de infraestruturação está superado e agora é explorar e operar. Enganam-se os que pensam assim. O desafio atual é quiçá ainda maior, e porquê? Porque o capital disponível é menor, porque o crescimento populacional preconizado em tantos e tantos projetos não se veio a concretizar, porque é mais difícil operar bem instalações em sub-utilização do que instalações em plena carga, porque é preciso manter as infraestruturas (os ativos), não apenas operacionais, mas num funcionamento sustentável, do ponto de vista técnico, económico, ambiental e social. Extraindo deles o máximo, o melhor!

 

É aqui que reside o grande desafio, fazer mais e melhor com menos. Como? Fazendo seguramente diferente, pensar fora da caixa, trazer para a indústria da água, ferramentas de gestão, baseadas numa lógica de Lean Mangement e eficiência energética, promovendo uma mudança operacional que vise a criação de valor e a redução do desperdício.

 

Numa época que se fala tanto em economia circular, em resource recovery, temos que saber olhar para o ciclo urbano da água, para cada processo, etapa de tratamento ou operação unitária e ser capazes de inovar, otimizando, reduzindo, potenciando ganhos e valorizando sub-produtos.

 

A água e a energia estão indubitavelmente indissociadas, é preciso energia para captar, bombar, tratar, distribuir, recolher, novamente tratar, eventualmente reutilizar, etc., mas a água seja ela potável, seja residual contém em si mesma várias formas de energia. Energia motriz, energia potencial, energia química, energia térmica, etc. que pode e deve ser aproveitada. É um desafio grande para os profissionais do setor e para as entidades gestoras procurar fechar o ciclo urbano da água com um nexus água-energia (kW.h/m3) senão zero, a tender para zero.

 

No domínio dos RSU, há muito que o paradigma, waste to energy, foi assimilado, e se a quantidade de RSU/hab é um indicador de desenvolvimento sócio-económico também o é a taxa de reciclagem, de reutilização, e de produção de energia. E, há hoje, múltiplos exemplos de valorização, reutilização, recuperação de uma infinidade de produtos, ou do que deles resta depois de utilizados além da produção de energia.

 

No domínio das ARU este paradigma, wastewater to energy, ainda é embrionário, mas é este, o caminho que visa a economia circular também ela aplicada ao ciclo urbano da água. E se já vai havendo notícias de ETAR com boas performances no domínio da eficiência energética, e do resource recovery há ainda um grande caminho a percorrer, que o digam os profissionais do setor.

 

Tender para os zero % de energia, faz-nos obrigatoriamente sair da nossa zona de conforto e inovar, inovar no modo como olhamos os processos, como operamos a IE, como conduzimos o setor.

 

Apesar do peso significativo, que os custos com energia têm nos OPEX das IE de água e saneamento, no contexto global, o consumo de energia no setor, face às outras atividades económicas é seguramente residual, não obstante, recordo a famosa fábula do colibri.

 

“Conta-se que um dia houve um grande incêndio no bosque e os animais fugiram todos, (…) um deles, um pequeno símio, subiu a uma árvore e viu um pequenino colibri, que numa grande azáfama ia a um lago próximo recolher água, deixando depois cair uma ou duas gotas de água sobre as chamas que ameaçavam queimar toda a floresta. E de novo voltava ao lago. Vendo o afã do colibri, que ia e vinha buscar água ao lago, (...), gritou:

 

- Ei, tonto! Que estás a fazer? Não vês que o fogo é maior do que tu?

 

Ao que o colibri respondeu:

 

- Eu estou a fazer a minha parte. E tu? “

 

Ana Paula Teixeira é Mestre em Engenharia e Gestão de Tecnologia (2000, IST). Em 2002 integrou os quadros da SimTejo - Saneamento Integrado do Tejo e Trancão, onde participou em vários projetos nas áreas de operação de sistemas de tratamento de águas residuais, planos de operação e manutenção, modelação de drenagem urbana, reutilização de águas residuais, otimização energética de sistemas de tratamento biológico, indicadores de desempenho-Past21. Cooperou com a ANEQP no desenvolvimento dos perfis profissionais e referencial de formação de operador e técnico de ETA/ETAR. Em 2015 integrou os quadros da AdLVT. Desenvolve atualmente atividade na Direção de Gestão de Ativos da EPAL – Departamento de Gestão de Perdas e Afluências indevidas. É presidente da SC2 da CT90*. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.


*A CT 90 é o órgão técnico que visa a elaboração de documentos normativos e a emissão de pareceres normativos no domínio dos sistemas urbanos de água, tendo sido criado em 1990 pelo IPQ. A subcomissão 2 (SC2) – Sistemas de águas residuais acompanha o trabalho desenvolvido no âmbito dos comités técnicos europeus com atividade relevante para os sistemas urbanos de água CEN/TC165).

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