Colunista convidada Ana Paula Teixeira: A Gestão (do conhecimento) no ciclo urbano da água

04.09.2017

O Homem sempre se sentiu interpelado na busca e procura do conhecimento, é da sua natureza - humana - usar a inteligência para perceber o “mecanismo” dos fenómenos que o rodeiam. E sempre usou as suas capacidades, hoje dizem-se competências, para desenvolver a técnica e promover a melhoria das condições de vida, sua e dos seus semelhantes, e foi esta atitude intrépida e cooperante que nos conduziu até ao séc. XXI, à era tecnológica.

 

Não deixo de me maravilhar, quando numa ETAR, mesmo nas mais recentes que dispõem de tecnologia de ponta, vejo os parafusos de Arquimedes (287-212 a.C.), girando tranquilamente e elevando grandes volumes de água. Dois mil anos depois, esta tecnologia continua muito atual, no ciclo urbano da água. Os parafusos de Arquimedes continuam a ser um dos equipamentos de bombagem, de água e águas residuais, mais robustos e eficientes.

 

Em pleno séc. XXI, na era da internet das coisas (IoT), coexistem apps e parafusos de Arquimedes em muitas das infraestruturas de água (sejam elas de abastecimento ou saneamento). Esta coexistência, cuja origem dista mais de 2200 anos, é pacífica além de profícua.

 

Paralelamente, em Portugal, nas atuais EG de água e saneamento coexistem várias gerações e distintas origens de conhecimento. Há um conhecimento intrínseco às pessoas e às organizações que é necessário partilhar, um dos agentes diferenciadores das organizações é a sua capacidade de gerir e disseminar o conhecimento - o capital humano - pela organização, numa lógica transversal que supere a clássica abordagem Top-down e Bottom-up. A apropriação do conhecimento individual e a sua disseminação pelas diferentes áreas permite às empresas alavancar a competência global da organização. A competência individual converte-se em competência empresarial, traduzindo-se na otimização de atividades e processos, maior agilidade na tomada de decisão, aumento do grau de satisfação dos colaboradores, clientes, stakeholders e shareholders, incremento dos resultados efetivos de inovação, incremento da cadeia de valor, promoção do produto e/ou serviço.

 

Em contexto de mudança é frequente ouvir-se dizer, ao longo do meu percurso profissional, ouvi-o muitas vezes nos mais diversos contextos, “As empresas são as pessoas”.

 

É verdade, também são as pessoas, mas são essencialmente o produto da atitude das pessoas face ao conhecimento que foram adquirindo, a forma como põem esse conhecimento ao serviço da organização, o partilham com os colegas (todos os colegas), se mostram disponíveis para ouvir novas ideias, novas abordagens, diferentes perspetivas.

 

Atualmente a facilidade de acesso à informação pode gerar, nos indivíduos e nas organizações, uma falsa perspetiva, não basta estar informado é preciso converter informação em conhecimento.

 

À máxima - conhecimento é poder - contraponho o conhecimento – individual - disseminado e apropriado no seio de uma organização capacita as empresas para se posicionarem diferenciadamente, enquanto líderes, na sua área de negócio.

 

Ana Paula Teixeira é Mestre em Engenharia e Gestão de Tecnologia (2000, IST). Em 2002 integrou os quadros da SimTejo - Saneamento Integrado do Tejo e Trancão, onde participou em vários projetos nas áreas de operação de sistemas de tratamento de águas residuais, planos de operação e manutenção, modelação de drenagem urbana, reutilização de águas residuais, otimização energética de sistemas de tratamento biológico, indicadores de desempenho-Past21. Cooperou com a ANEQP no desenvolvimento dos perfis profissionais e referencial de formação de operador e técnico de ETA/ETAR. Em 2015 integrou os quadros da AdLVT. Desenvolve atualmente atividade na Direção de Gestão de Ativos da EPAL – Departamento de Gestão de Perdas e Afluências indevidas. É presidente da SC2 da CT90*. As opiniões expressas neste artigo vinculam apenas a autora.


*A CT 90 é o órgão técnico que visa a elaboração de documentos normativos e a emissão de pareceres normativos no domínio dos sistemas urbanos de água, tendo sido criado em 1990 pelo IPQ. A subcomissão 2 (SC2) – Sistemas de águas residuais acompanha o trabalho desenvolvido no âmbito dos comités técnicos europeus com atividade relevante para os sistemas urbanos de água CEN/TC165).

TAGS: água , conhecimento
Vai gostar de ver
VOLTAR