Colunista David Rua (Tecnologia): A gestão de energia – participação e tecnologia (inteligência)

28.11.2018

Os consumidores tradicionais estão a mudar e, em muitos casos, são já microprodutores de energia. Com a capacidade de produção de energia local, em grande parte de fonte renovável, a integração de veículos elétricos e cargas térmicas flexíveis, os edifícios domésticos podem tornar-se elementos ativos na gestão de energia doméstica.

 

De acordo com o Eurostat, o consumo final de energia no setor residencial representava, em 2016, cerca de 25.4% do consumo total. Essa mesma energia é utilizada no aquecimento de água, aquecimento e arrefecimento de espaços, confeção alimentar, iluminação, entre outros. No caso de Portugal a eletricidade continua a ser o vetor predominante (42,9%) na composição energética de consumo nas casas, seguido pelo uso de petróleo e derivados (25,9%) e finalmente pelo uso de fontes renováveis (31,1%).

 

A participação dos consumidores domésticos nos designados serviços de gestão da procura, requer que sejam criadas as condições e incentivos apropriados para que a adesão se torne natural e contínua. Para tal, é necessário que os retalhistas de energia (existentes e novos) disponibilizem serviços que estejam alinhados com os seus interesses e dos consumidores de energia.

 

Os retalhistas de energia começam a olhar com maior interesse para o potencial que as casas têm na exploração de mecanismos de flexibilização do uso de energia. A flexibilidade no uso da energia doméstica pode ser usada, de forma agregada com múltiplos consumidores domésticos, como um mecanismo de negociação de serviços de energia que se traduzam em mais-valias quer para os retalhistas, quer para os clientes domésticos que representam.

 

Sistemas domésticos de gestão de energia, conhecidos na designação anglo-saxónica por Home Energy Management Systems (HEMS), estão a ser explorados como plataformas tecnológicas através das quais novos serviços de energia (ex. tarifas dinâmicas, autoconsumo, serviços de apoio à rede elétrica) podem ser conjuntamente explorados. Estes sistemas otimizam o consumo de energia considerando não só o menor custo possível como também o maior aproveitamento de produção renovável local, tendo sempre em consideração as preferências dos utilizadores. Com a inclusão dos modelos de energia dos diferentes dispositivos domésticos e até dos espaços físicos torna-se possível a sua otimização automática, em função de preferências de uso e incentivos, sejam eles baseados em preços ou no aproveitamento de produção renovável local.

 

O grande desafio passa agora por garantir a interoperabilidade entre os diversos dispositivos e sistemas digitais que estarão associados às plataformas de gestão de energia. Iniciativas como o Smart Appliances REFerence (SAREF) ontology procuram estabelecer modelos de dados universais para os diferentes dispositivos. A vantagem deste tipo de abordagem é não só permitir que dispositivos de fabricantes diferentes possam utilizar a mesma “linguagem” na troca de informação com as plataformas locais (ex. HEMS) e com os seus utilizadores, mas também garantir uma menor dependência de sistemas proprietários. Com a capacidade de criar blocos de informação que representam dispositivos, sistemas e até edifícios é possível através dos HEMS criar serviços adequados às necessidades dos utilizadores finais de energia. A conectividade e o uso de aplicações móveis permitem a interação necessária entre o utilizador final e o ecossistema energético das casas.

 

O benefício da participação dos consumidores finais é claro para o contributo na redução conjunta da pegada carbónica no setor da energia. Fatores como o aumento da eficiência, redução dos custos com a energia e a integração em larga escala de fontes renováveis só se tornam possíveis a longo-prazo com serviços e tecnologia ao serviço dos cidadãos. O projeto InteGrid [1]irá instalar em 2019 mais de 200 HEMS em casas e apartamentos, nas Caldas da Rainha, no Samouco e em Valverde, para demonstrar a capacidade destas plataformas em otimizar o consumo de energia, em cooperação com os seus utilizadores finais.

 

 

David Rua é investigador sénior do Centro de Sistemas de Energia do INESC TEC e responsável atual pela área de X-Energy Management Systems que se dedica ao desenvolvimento de soluções de gestão de energia interoperáveis para edifícios. Doutorado pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto em Sistemas Sustentáveis de Energia, tem desenvolvido a sua atividade de investigação em temas como os sistemas de comunicações para as redes elétrica inteligentes, a gestão de energia em edifícios domésticos e a integração de geração renovável nos sistemas elétricos. Tem estado envolvido em vários projetos Europeus como o MERGE, evolvDSO, SmarterEMC2, AnyPLACE e InteGrid onde se desenvolveram estratégias para a integração de recursos de energia distribuídos e a otimização do uso de energia.

 

VOLTAR