Colunista João Peças Lopes (Energia-Tecnologia): O Crescimento da Produção Solar Fotovoltaica

27.03.2017

A produção de energia elétrica explorando tecnologia solar fotovoltaica tem vindo a duplicar em cada dois anos desde 2002, tornando-se na tecnologia de conversão com maior crescimento mundial. Tal resulta da progressiva redução dos custos de produção e instalação desta tecnologia. Nos últimos 4 anos estes custos, incluindo comercialização, caíram mais de 40%, seguindo uma trajetória descendente que se tem vindo a verificar nos últimos anos. Segundo estudo recente do Deutsch Bank, o custo de um painel solar fotovoltaico já instalado sobre um telhado ou cobertura de um edifício, com inversor incluído, ronda atualmente os 1,64€ /Wp.

 

Atualmente já se atingiu a paridade de preço da produção de eletricidade solar fotovoltaica numa habitação em relação ao preço de aquisição de energia elétrica à rede pública. Em Portugal, apesar do preço da energia no mercado grossista rondar os 5 c€/KWh, acrescem a este valor as tarifas de uso de rede, de uso global do sistema, de comercialização e restantes custos de interesse comum, o leva a que a energia disponibilizada ao consumidor final em BT atinja o valor de 16,5 c€ (tarifa regulada). Com estes custos, a produção local de eletricidade com recurso a tecnologia solar fotovoltaica torna-se competitiva e tem-se assistido a um progressivo crescimento da produção para autoconsumo, em que a energia elétrica produzida localmente é consumida predominantemente pelo produtor, embora com a possibilidade de injetar o remanescente na rede elétrica.

 

A crescente competitividade da tecnologia solar fotovoltaica irá assim conduzir a dois movimentos:

 

a)      O crescimento da instalação de sistemas de conversão para autoconsumo, com reduzidas potências instaladas (em muitos casos inferiores a 1kWp) e com uma grande dispersão geográfica;

 

b)      O aparecimento de grandes centrais solares fotovoltaicas a ligar à rede de transporte em alta e muito alta tensão, competindo no mercado grossista com as tecnologias convencionais.

 

Dada a variabilidade temporal deste recurso energético primário, induzida pelo movimento diário do sol e pela ocorrência de nebulosidade, haverá impactos significativos na gestão das redes e na produção convencional, sendo de referir nomeadamente:

 

a)      A redução dos trânsitos de energia nas redes, levando à necessidade de alterar a forma de remuneração da atividade de distribuição de energia elétrica;

 

b)      A necessidade de desenvolver sistemas para compensar as variações rápidas e rampas decorrentes da variabilidade temporal do recurso primário, quer recorrendo a sistemas de armazenamento, quer recorrendo a centros produtores dotados de maior flexibilidade;

 

c)       Alterações na estrutura dos mercados de eletricidade e de serviços de sistema, por forma a garantir uma exploração robusta do sistema e a segurança de abastecimento. 

 

João Peças Lopes é administrador do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) e Professor Catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. É doutorado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores e foi responsável por dezenas de projetos nacionais ou europeus nesta área, tais como a definição de especificações técnicas para a integração de energia eólica no Brasil. É vice-presidente da Associação Portuguesa de Veículos Elétricos. 

TAGS: Opinião , João Peças Lopes , energia , tecnologia , produção solar fotovoltaica
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