Comentário Jaime Melo Baptista: A água com rosto humano

02.01.2018

No último dia de 2017 consultei o World Poverty Clock sobre a situação dos concidadãos mais desfavorecidos neste nosso planeta comum. O que tem isto a ver com a água? Muito. Os serviços de águas têm forte impacto na redução da pobreza e uma boa gestão de recursos hídricos também é decisiva na redução das catástrofes ambientais que contribuem para essa pobreza.

 

Os números continuam a ser impressionantes, pois 630 milhões de pessoas vivem em pobreza extrema, ou seja, 8% da população mundial. E não é toda a pobreza que está a ser contabilizada, mas apenas a extrema! Segundo as Nações Unidas, ela é caracterizada por uma grave privação de necessidades humanas básicas, como alimentos, água potável, instalações sanitárias, saúde, residência, educação e informação.

 

Contudo a situação tem vindo a melhorar, pois no início deste século mais do triplo desse número de pessoas viviam em pobreza extrema. Esses números refletem uma diminuição na taxa global de 28% para os atuais 8%. Os progressos mais significativos foram no leste e sudeste da Ásia. Em contraste, a África Subsaariana continua a ser um drama. Estima-se que no último dia de 2017 estivessem a entrar em pobreza extrema cerca de 24 000 pessoas e a sair dela cerca de 115 000. Este saldo traz-nos alguma esperança. Mas, de acordo com o relatório E/2017/66 do secretário-geral das Nações Unidas intitulado "Progredir no sentido dos objetivos de desenvolvimento sustentável", e apesar de a pobreza global ter sido reduzida, é ainda necessário um enorme esforço para aumentar rendimentos, aliviar sofrimento e dar maior proteção aos cidadãos que ainda vivem em situação de extrema pobreza, em particular na África Subsaariana. Os sistemas de proteção social têm que ser alargados e os riscos para países sujeitos a catástrofes, em geral os mais pobres, têm de ser atenuados. As perdas económicas resultantes de catástrofes atingem perto de US$ 300 000 milhões por ano.

 

Para alguns este pode parecer um problema distante, mas lembrem-se que, para além da questão humana, ele arrasta outros, nomeadamente o da estabilidade mundial.

 

E nos países de expressão portuguesa? A pobreza extrema representa 0,8% em Portugal, 4,5% no Brasil, 13% em Timor Leste, 17% em Cabo Verde, 24% em São Tomé e Príncipe, 30% em Angola, 58% na Guiné Bissau e 65% em Moçambique. E em alguns deles com tendência de agravamento. O que uns bons serviços de águas e uma boa gestão de recursos hídricos não poderiam contribuir para a melhoria desta situação!

 

Que 2018 seja um ano em que vejamos estas tímidas melhorias consolidarem-se a nível mundial. E que os países de expressão portuguesa saibam trabalhar em conjunto no sentido do cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, esperando que a declaração “CPLP rumo a Brasília”, em preparação para o Fórum Mundial da Água em 2018, redefina a cooperação lusófona no domínio da água. E, finalmente, que as entidades portugueses não se esqueçam que mesmo entre nós há quem precise muito de solidariedade e de políticas mais adequadas nos serviços de águas.

 

Jaime Melo Baptista, engenheiro civil especializado em engenharia sanitária, é Investigador-Coordenador do LNEC, Presidente do Conselho Estratégico da PPA e Comissário de Portugal ao 8.º Fórum Mundial da Água 2018. Foi membro do conselho de administração e do conselho estratégico da IWA. Foi presidente da ERSAR (2003-2015), responsável pelo Departamento de Hidráulica (1990-2000) e pelo Núcleo de Hidráulica Sanitária (1980-1989) do LNEC, diretor da revista Ambiente 21 (2001-2003) e consultor. Foi distinguido com o IWA Award for Outstanding Contribution to Water Management and Science.

VOLTAR