Comentário Jaime Melo Baptista: Como evoluir para a economia circular nos serviços de águas?

02.11.2016

Ouvimos frequentemente dizer que a sociedade está a evoluir de uma economia essencialmente linear para uma economia mais circular. O que significa isto exatamente? O que é a economia circular? E como se aplica aos serviços de águas?

 

O surgimento da economia circular resulta de o modelo tradicional de crescimento e desenvolvimento económico, baseado em “extrair, transformar, consumir e rejeitar”, típico da economia linear, ser crescentemente incompatível com o desenvolvimento sustentável. Há urgentemente que desligar o crescimento e o desenvolvimento económico do consumo de recursos que são finitos, como é o caso da água, porque eles já não suportam a pressão a que estão sujeitos. E há um misto de razões ambientais, sociais e também económicas para evoluirmos no sentido dessa economia circular.

 

Os serviços de águas, entendidos como abastecimento de água e gestão de águas residuais e de águas pluviais, podem e devem também ser motores da economia circular. Porque eles são transversais a praticamente todos os restantes setores de atividade.

 

Na verdade, há vários anos que estes serviços têm vindo a adotar tecnologias e práticas no sentido dessa economia circular, face à regulamentação cada vez mais exigente e também para responderem aos desafios das alterações climáticas e da urbanização, com apoio da inovação científica e tecnológica. Contudo essa evolução tem sido condicionada e consequentemente retardada por uma regulamentação por vezes bloqueante e essencialmente por condições de mercado pouco claras e incentivadoras.

 

Há pois que continuar a promover no setor da água novos procedimentos para aumentar a economia circular, começando por interiorizar que a água, os materiais e a energia são indissociáveis, não se podendo falar de economia circular da água sem falar dos restantes vetores. E é indispensável identificar instrumentos regulatórios e de mercado que incentivem o aumento e acelerem a evolução em direção à economia circular na água, caso contrário ela não progride ao ritmo necessário.

 

Se analisarmos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, verificamos que objetivo 6 (Assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável de água e saneamento para todos) é uma prioridade e é transversal a todos os restantes objetivos. Mas verificamos também quão importante é o objetivo 12 (Assegurar padrões sustentáveis de consumo e produção) no sentido da economia circular. E por isso o tema tem vindo a ser trabalhado no quadro da Associação Internacional da Água (IWA), valendo a pena analisá-lo, o que me proponho fazer neste jornal ao longo das próximas semanas, abordando nomeadamente procedimentos ainda pouco utilizados e outros emergentes no sentido da economia circular.

 

Até porque isso é importante para Portugal. Queremos ser front runners na economia circular ou ser arrastados por ela, mais tarde ou mais cedo? Se efetivamente nos queremos empenhar, temos que ir adotando ponderadamente os procedimentos da economia circular para a água, os materiais e a energia, o que implica liderança, inovação e participação. E para isso é indispensável fazermos a identificação, a institucionalização e a promoção dos indispensáveis incentivos regulatórios e mecanismos de mercado, que contribuam para aumentar e acelerar esses procedimentos e assim criar efetivas condições para a economia circular na água no nosso País. Aprofundaremos brevemente este assunto.

 

Jaime Melo Baptista, engenheiro civil especializado em engenharia sanitária, é Investigador-Coordenador do LNEC e Presidente do Conselho Estratégico da PPA. É membro do conselho de administração e do conselho estratégico da IWA. Foi presidente da ERSAR (2003-2015), responsável pelo Departamento de Hidráulica (1990-2000) e pelo Núcleo de Hidráulica Sanitária (1980-1989) do LNEC, diretor da revista Ambiente 21 (2001-2003) e consultor. Foi distinguido com o IWA Award for Outstanding Contribution to Water Management and Science.

TAGS: Comentário , Jaime Melo Baptista , água , economia circular
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