Comentário Rui Berkemeier (Resíduos): Reciclagem de embalagens com dois pesos e duas medidas

23.03.2017

O recente anúncio unilateral pela SPV (Sociedade Ponto Verde) de que iria suspender o pagamento dos custos da recolha seletiva e triagem de embalagens mereceu a melhor atenção do Ministério do Ambiente e no espaço de dois dias o problema terá sido sanado, pelo menos nos seus aspetos mais imediatos.

 

Esta prontidão do Ministério é de louvar, mas o mesmo não aconteceu quando há mais de um ano a SPV suspendeu também unilateralmente, e até hoje, o pagamento das embalagens triadas nos TM e TMB fazendo com que os sistemas de gestão de resíduos urbanos possam vir a ter um prejuízo superior a oito milhões de euros e tenham enviado muitos milhares de toneladas de embalagens recicláveis para aterro.

 

Mas qual será a razão de uma atitude tão radicalmente diferente do Ministério do Ambiente?


Como é óbvio não sabemos, mas uma coisa é certa, quando se colocou a questão sobre os materiais dos TMB, isso não constituiu um problema para os grandes sistemas de gestão de resíduos sem TMB e que apostam quase tudo na incineração.

 

Agora com a suspensão dos apoios da SPV à recolha seletiva, esses grandes sistemas já se sentiram lesados e, pelos vistos, o Ministério já soube ser célere a resolver a situação, numa aparente política de dois pesos e duas medidas.

 

Mas também a SPV quando suspendeu o pagamento dos materiais provenientes dos TMB não suspendeu igualmente o dos metais obtidos nos incineradores quando a tal não era obrigada, ou seja, quem apostou nos TMB saiu injustamente lesado. E também sobre isto o Ministério do Ambiente não disse nada.

 

O mais curioso é que são os sistemas com TMB eficientes, que são de longe os que mais contribuem para a reciclagem de embalagens, aqueles que têm sido mais lesados pelas políticas do Ministério e da SPV.    

 

Rui Berkemeier é Engenheiro do Ambiente licenciado pela FCT/UNL. Foi Técnico Superior da Direção de Serviços de Hidráulica do Sul em Évora (1988-1992), na área de Controle da poluição hídrica e extracção de inertes, e Chefe de Setor de Ambiente da CM das Ilhas em Macau (1992-1996) na Gestão de Resíduos e Educação Ambiental. Desempenhou as funções de Coordenador do Centro de Informação de Resíduos da Quercus de 1996 a 2016 acompanhando as políticas nacionais de gestão de resíduos. Atualmente é técnico especialista na Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável.

TAGS: Comentário , Rui Berkemeier , resíduos , embalagens , Sociedade Ponto Verde
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