Jaime Melo Baptista (Água): A caminho das cidades do futuro e da economia circular

07.05.2019

Quando se aproxima rapidamente o Portugal Smartcities Summit 2019, organizado pela Fundação AIP, que inclui uma conferência internacional sobre “Água e Cidades do Futuro”, e no seguimento de excelentes conferências como a da APDA sobre desafios e oportunidades na transição para a economia circular no setor da água e a da About Media sobre a economia circular para a água em Lisboa, justifica-se cada vez mais dar visibilidade a casos concretos que estamos a implementar entre nós nesta área.

 

Um bom caso de estudo é a Empresa Municipal Águas de Gaia, que instalou um sistema para abastecimento da zona marginal do concelho com água reutilizada e um ponto de abastecimento para fornecimento de água para limpeza urbana e para rega nas zonas ajardinadas da orla marítima. Agora vai instalar um sistema de aproveitamento da água da chuva para abastecimento das instalações sanitárias em escolas. Os autoclismos serão preferencialmente abastecidos a partir de reservatórios que recolhem as águas pluviais provenientes das coberturas dos edifícios escolares. A água será também utilizada para a lavagem dos pátios e áreas confinantes, reduzindo o consumo de água potável da rede.

 

A maior ETAR da Simdouro trata 12 milhões de metros cúbicos por ano e produz grandes volumes de biogás que permitem a produção de energia elétrica. Por outro lado, o processo de tratamento de águas residuais necessita de energia elétrica para a produção de oxigénio, circulação de lamas, ventilação e desodorização, entre outros processos. O plano agora gizado visa reduzir o consumo de energia necessária para o processo de tratamento de águas residuais e, simultaneamente, aumentar a capacidade de produção de energia elétrica a partir de biogás, a caminho da neutralidade energética.

 

Provocação do mês:

 

Estes e outros casos surgem quase duas décadas depois do primeiro anúncio do Programa Nacional para o Uso Eficiente da Água, que integra este grande tema das cidades do futuro e da economia circular. Resultou de um estudo elaborado pelo LNEC com o apoio do ISA, que decorreu no período 2000/2001, realizado para o então Instituto da Água (INAG). O objetivo foi avaliar a eficiência com que a água era utilizada em Portugal nos sectores urbano, agrícola e industrial, e propor um conjunto de medidas que permitissem uma melhor utilização desse recurso, tendo como vantagens adicionais a redução das águas residuais resultantes e dos consumos energéticos associados. Neste documento foram apresentadas as metas a atingir e detalhadamente descritas 87 medidas, das quais 50 se destinavam ao sector urbano, 23 ao sector agrícola e 14 ao sector industrial, sendo que várias das medidas do sector urbano se aplicavam também ao sector industrial.

 

Seria importante percebermos porque somos tão pouco eficazes em passar dos planos para a sua efetiva concretização. Que máquina é essa que mastiga tranquilamente esses planos durante duas décadas, em prejuízo de todos nós?


Jaime Melo Baptista, engenheiro civil especializado em engenharia sanitária, é Investigador-Coordenador do LNEC, Coordenador do Lisbon International Centre for Water (LIS-Water), vogal do CNADS e Presidente do Conselho Estratégico da PPA e foi Comissário de Portugal ao Fórum Mundial da Água 2018. Integrou o conselho de administração e o conselho estratégico da IWA. Foi presidente da ERSAR (2003-2015), dirigiu o Departamento de Hidráulica (1990-2000) e o Núcleo de Hidráulica Sanitária (1980-1989) do LNEC, foi diretor da revista Ambiente 21 (2001-2003) e consultor. Foi distinguido com o IWA Award for Outstanding Contribution to Water Management and Science.

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