Municípios equacionam múltiplas soluções de adaptação às alterações climáticas

Próxima fase do ClimaAdaPT.Local é analisar exequibilidade das acções

09.10.2015

Para se adaptarem às alterações climáticas, nomeadamente no que diz respeito à erosão costeira, alguns dos 26 municípios do programa ClimAdaPT.local, estão a equacionar soluções que passam pela recuperação das dunas, construção de muralhas e esporões e, em situações extremas, relocalização das populações, revelou o coordenador do projecto ClimAdaPT.local, Gil-Penha Lopes, ao Ambiente Online.

 

“A regeneração das dunas, tornando-as mais resistentes à acção do mar, é uma opção que está a ser ponderada pelos municípios da região de Aveiro neste âmbito. É opção mais barata, com boa aceitação social e cultural, mas ao nível da eficácia tudo depende do tipo de temporal que atingir a zona e a tendência é que os eventos sejam cada vez mais extremos”, alerta.

 

Outra acção equacionada para fazer face ao mesmo problema da erosão costeira é a construção de muralhas e esporões. Se por um lado é eficaz no local onde é implementada pode no entanto provocar taxas de erosão mais fortes a jusante. “Ou seja, se um município colocar vários esporões na sua costa quem está a jusante, neste caso a sul desse município, sofre agravamento da erosão porque os sedimentos que são transportados de norte para sul vão ficar retidos nos esporões do lado norte, o quer dizer que o mar vai ter mais força para ir buscar areia no lado sul e isso pode agravar fortemente a erosão”, explica Gil-Penha Lopes.

 

A terceira solução, ponderada em casos muito críticos ou no futuro, é a relocalização, que é uma opção que nunca é muito bem aceite, ressalva. “Muitas vezes estamos a falar de um cenário de 2050, mas a questão é que se estas estratégias não forem planeadas nunca vai haver dinheiro para relocalizar toda a gente e o mar vai acabar por fazer o seu trabalho que é destruir”, avisa.

 

O programa ClimAdaPT.local, que engloba 26 municípios portugueses com diferentes realidades, arrancou no início do ano. Nesta fase as potenciais soluções estão a ser elencadas pelos municípios e o próximo passo, nos próximos dois a três meses, prende-se com a avaliação de cada medida para que possam ser incorporadas depois nos instrumentos de gestão territorial. “Vamos avaliar os custos de implementação e manutenção de cada opção. É preciso verificar se há acesso as terrenos em causa e se a lei o permite ou não”, exemplifica.

 

Estas soluções surgem como resposta às vulnerabilidades identificadas numa fase anterior do projecto. No Alentejo, onde a realidade é diferente, o Alqueva aparece para a componente das terras. Gil-Penha Lopes chama no entanto a atenção para o facto de resolver apenas o problema a curto prazo. “Continua a apostar-se na agricultura de irrigação intensiva que não está em linha com o cenário previsto para aquela região que é ter ficar cada vez mais seca. São aquilo a que chamamos as soluções de ‘penso rápido’. Podem optar-se por culturas mais resistentes à seca que venham de áreas mais áridas”, propõe.

 

Para o problema das inundações urbanas os municípios vão tentar que nas bacias hidrográficas seja feita retenção da água de forma a que menos água chegue às cidades. Escoar bastante água num curto espaço de tempo, como Lisboa pretende fazer, pode não ser a solução mais adequada sobretudo quando o nível do mar é muito elevado, alerta.

 

“Muitas vezes a zona de Lisboa não consegue escoar não tanto, não porque os mecanismos não estão lá, mas porque a água não tem para onde escoar. Começa a chegar ao mar e o mar também quer entrar para a zona urbana. Fala-se em bombeamentos, mas tudo isso acarreta custos de energia e poluição", analisa.

 

Em Junho o consórcio responsável pela iniciativa tornou públicos as principais vulnerabilidades climáticas identificadas pelos 26 municípios envolvidos, como cheias, ventos fortes, ondas de calor, gelo e deslizamento de vertentes.

 

O projecto tem como objectivo iniciar em Portugal “um processo contínuo de elaboração de Estratégias Municipais de Adaptação às Alterações Climáticas e a sua integração nas ferramentas de planeamento municipal”.

  

As 26 autarquias beneficiárias são Amarante, Barreiro, Braga, Bragança, Castelo de Vide, Castelo Branco, Coruche, Évora, Ferreira do Alentejo, Figueira da Foz, Funchal, Guimarães, Ílhavo, Leiria, Lisboa, Loulé, Montalegre, Odemira, Porto, Seia, São João da Pesqueira, Tomar, Tondela, Torres Vedras, Viana do Castelo e Vila Franca do Campo. Outros municípios, como Mafra, associaram-se entretanto posteriormente ao projecto.

 

O consórcio responsável pelo ClimAdaPT.Local é liderado pelo centro de investigação CCIAM/CE3C da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e constituído por entidades portuguesas e norueguesas (académicas, empresas, ONG e municípios) – entre as quais a Quercus - envolvidas em estudos, elaboração de estratégias e implementação de acções de adaptação, assim como no planeamento e gestão do território ao nível municipal e regional.

 

O ClimAdaPT.Local está integrado no Programa AdaPT, gerido pela Agência Portuguesa do Ambiente, enquanto gestora do Fundo Português de Carbono (FPC), no valor total de 1,5 milhões de euros cofinanciado a 85 por cento pelo EEA Grants e a 15 por cento pelo FPC.

 

O projecto beneficia de um apoio de 1,270 milhões de euros da Islândia, Liechtenstein e Noruega através do programa EEAGrants, e de 224 mil euros através do FPC. 

 

Ana Santiago

TAGS: alterações climáticas , ClimAdaPT.Local
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