Opinião Álvaro Menezes (Brasil-Saneamento): Uma pátria descalça

06.07.2018

O inesquecível cronista brasileiro Nélson Rodrigues, responsável pela coletânea de artigos a “Pátria de chuteiras”, fez uma leitura muito real e consciente sobre um país a ser descoberto tomando como referência a sua paixão pelo futebol e isso, com base em artigos escritos entre 1950 e 1970.

 

Ele, após avaliar e sentir como a história do Brasil e seu povo se relacionavam apaixonadamente pelo futebol, disse, entre outras coisas que “Este país é uma descoberta contínua e deslumbrante”. 

 

Desde 1995 o Governo Federal vem publicando, com significativas melhorias, o SNIS-Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, o qual fundamenta iniciativas como as do Instituto Trata Brasil que publica desde 2009 o Ranking Nacional do Saneamento, da ABCON-Associação Brasileira da Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Saneamento que publica o Panorama da Participação Privada no Saneamento desde 2014 e da ABES-Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental, que iniciou em 2017 a publicação do Ranking ABES da Universalização do Saneamento.

 

Os resultados destas publicações e essencialmente do SNIS, mostram que o Brasil é um país descalço, com milhões de brasileiros e brasileiras, ainda vivendo com os “pés no chão” quando o assunto é saneamento básico e saúde pública. A análise desses documentos, isoladamente ou em conjunto, aponta cruamente a diversidade que marca um país em descoberta contínua no que se refere a gestão dos serviços de saneamento.

 

Poderia se falar nos índices e alegrar a muitos com números que são conhecidos há anos e mesmo assim, pouco tem influído na mudança de cultura corporativa e modelos de gestão de modo a se dizer que existem soluções para melhorar de forma contínua e sustentável os serviços públicos de saneamento, sejam eles gerenciados por operadores públicos ou privados.

 

Um dos indicadores que mais gera marketing e power points dinâmicos é o que retrata as perdas de água popularmente tratadas pela mídia.

 

Deste país do saneamento em descoberta permanente, este importante indicador que resume o resultado da prestação dos serviços, é um dos remanescentes do PLANASA-Plano Nacional de Saneamento e destaca-se em ações iniciadas em 1985 com os Programas Estaduais de Redução e Controle de Perdas, o PNCDA-Programa Nacional de Combate ao Desperdício de Água iniciado em 1999 até as atividades mais recentes do Ministério das Cidades no Programa COM+ÁGUA, fase 2.

 

O que se enxerga, após tantos anos, é que os avanços foram localizados e pequenos para reduzir a diversidade de situações que se perpetuam neste Brasil descalço e, mais ainda, as práticas consideradas boas e sustentáveis pouco se multiplicaram, havendo ainda uma miscelânea de ações que ao invés de priorizar a gestão permanente como o melhor meio de reduzir e controlar as chamadas perdas de água, ficam ainda apresentando como soluções a liberação de milhões pelo Governo Federal e projetos de curto prazo que deixam pouco de aprendizado prático após sua implantação, ainda que gerem resultados localizados e pontuais positivos.

 

Reduzir as perdas de água implica objetiva e diretamente em ter uma ação de gestão permanente que esteja inserida na cultura corporativa desde o CEO até o chão de fábrica, contemplada por planos estratégicos compatíveis com os Planos de Saneamento e com a regulação dos serviços. Não pode ser pontual ou piloto e necessita ser de longo prazo, continuamente renovada tecnicamente, tecnologicamente e administrativamente para se tornar contínua, perene e sustentável.

 

Álvaro José Menezes da Costa é engenheiro civil graduado pela UFAL (Universidade Federal do Estado de Alagoas), Mestre em Saneamento e Recursos Hídricos e  especialista em Aproveitamento de Recursos Hídricos pela UFAL e Avaliação e Perícias de Engenharia pela UNIP - Universidade Paulista. É Diretor Nacional da ABES-Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental desde 2016. É consultor e diretor geral na Álvaro Menezes Engenharia & Consultoria - AMEC. Foi engenheiro e gestor público no setor de saneamento durante 30 anos na CASAL-Cia. de Saneamento de Alagoas e na COMPESA-Cia. Pernambucana de Saneamento. É autor de livros, capítulos de livros na área do saneamento ambiental e colunista na imprensa brasileira. É Membro da Academia Nacional de Economia.

VOLTAR