Colunista Álvaro Menezes (Saneamento - Brasil): Sem respostas?

17.01.2020

Nesta segunda semana do ano de 2020, duas notícias foram destaque nos meios de comunicação: a qualidade da água na cidade do Rio de Janeiro e um surto de dengue esperado para março.

 

Ambas, têm uma raiz comum que é a deficiência na gestão de serviços públicos de saneamento, embora deva se reconhecer que desta raiz, muitas outras derivações seguem se aprofundando no solo fértil da ineficiência de serviços públicos.

 

Quando se observa o caso do Rio de Janeiro e seus efeitos, chama atenção o comportamento defensivo da CEDAE-Companhia Estadual de Água e Esgotos do Rio de Janeiro, tentando provar para a sociedade que a água podre e suja que chegou às torneiras foi uma “pequena” falha operacional que não impede seu uso, pois a mesma está dentro dos padrões.

 

Nem houve preocupação em explicar por que uma unidade como a Estação de Tratamento do Guandu estava sem usar carvão ativado, mesmo sendo visível a olho nu a má qualidade da água do Rio Guandu, sem esquecer a condição do Paraíba do Sul.

 

A Estação, que teve sua primeira etapa inaugurada em 1955, trata hoje 43.000 m3/s, atende a cerca de 9.000.000 pessoas e está no Guinness Book como a maior estação de tratamento de água do mundo em produção contínua.

 

Só por isso, se exigiria uma gestão estratégica e extremamente profissional.

 

Entretanto, mais que zelar pela Estação – e ai não compete a CEDAE – muitíssimo importante é proteger os mananciais do lançamentos de esgotos domésticos e outros resíduos.

 

Devido a isto, Estações de tratamento em muitas capitais e grandes cidades operam longe de seus parâmetros de projeto, tanto para vazão quanto para a qualidade da água bruta captada nos rios e outras fontes.

 

Quanto a dengue que voltará em surto a partir de março nos Estados do Nordeste, mais o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, na impossibilidade de melhorar os serviços de abastecimento de água o Brasil adaptou-se ao mosquito Aedes aegypti, com definição de regras de convivência sustentadas nas campanhas “preventivas” para combater as larvas do mosquito e em serviços de abastecimento de água com racionamento ou falta frequente de água.

 

Assim, o mosquito vai driblando os agentes de saúde e suas colherinhas de cloro, enquanto as Companhias Estaduais de Saneamento insistem em afirmar que atendem a 90% ou mais de pessoas nas áreas urbanas e mantem atendimento no interior.

 

A realidade decorrente dos casos em destaque mais uma vez retorna ao ponto da gestão ineficiente dos serviços de saneamento no modelo atual.

 

Recuperação e reabilitação de ativos para o caso da CEDAE ou a execução de planos integrados de gestão de serviços públicos no caso da dengue, representam um pouco do que se necessita para resolver problemas como o da água podre do Rio de Janeiro e da dengue no Nordeste.

 

Isto é um pouco mesmo, pois o problema que a cada dia se agrava no saneamento, precisa de soluções em escala nacional principalmente nas áreas ambiental, de regulação e institucional.


Álvaro José Menezes da Costa é engenheiro civil graduado pela UFAL (Universidade Federal do Estado de Alagoas), Mestre em Saneamento e Recursos Hídricos e  especialista em Aproveitamento de Recursos Hídricos pela UFAL e Avaliação e Perícias de Engenharia pela UNIP - Universidade Paulista. É Diretor Nacional da ABES-Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental desde 2016. É consultor e diretor geral na Álvaro Menezes Engenharia & Consultoria - AMEC. Foi engenheiro e gestor público no setor de saneamento durante 30 anos na CASAL-Cia. de Saneamento de Alagoas e na COMPESA-Cia. Pernambucana de Saneamento. É autor de livros, capítulos de livros na área do saneamento ambiental e colunista na imprensa brasileira. É Membro da Academia Nacional de Economia.

VOLTAR