Opinião Álvaro Menezes (Saneamento-Brasil): Águas são muitas

09.05.2016

Entre 26 de abril e 02 de maio de 1500, o escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha, descreveu para Sua Alteza o Rei de Portugal não só as venturas e desventuras da viagem para descoberta da Terra de Vera Cruz, mas principalmente o que viram os portugueses naquela ocasião. Há exatos 516 anos Pero Vaz de Caminha afirmou: “Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”.

 

O tempo decorrido em comparação com a história da gestão de recursos hídricos e da proteção do meio ambiente na Europa, por exemplo, é muito pequeno e pode se invocar a imaturidade juvenil do Brasil para justificar a transformação da frase de Pero Vaz de Caminha em algo como: Águas são muitas; poluídas e abandonadas!

 

Na verdade o Brasil evoluiu na percepção do risco de contaminação das águas e hoje pode se dizer que em pouco tempo, há um razoável rol de instrumentos legais e institucionais, os quais dão um certo conforto às consciências de técnicos e fiscais que podem dizer que de acordo com as Resoluções CONAMA - Conselho Nacional de Meio ambiente ou lei 9.433/97 ou Regulamentos da ANA - Agência Nacional de Águas ou tantos outros documentos de Ministérios, Comitês de Bacia e Conselhos de todo tipo que discutem a conhecida “questão da água”, pelo menos a parte relativa a acusação, cobrança e punição se faz de forma ativa.

 

O problema que persiste está exatamente no que é mais grave: gerenciar os recursos hídricos de modo que as águas que ainda são muitas, possam permanecer entre os brasileiros por muito tempo e que tenham qualidade capaz de atender a padrões de potabilidade que não coloquem em risco a saúde das populações.

 

Infelizmente o que se vê são estações de tratamento de água funcionando quase como estações de tratamento de esgotos, em função dos níveis de qualidade da água nos rios e barragens onde o comprometimento de seus estados tróficos e a toxicidade já atingem situações críticas.

 

Rios importantes e sistemas de reservatórios do Sudeste são os melhores exemplos desta grave perda de qualidade da água. Desta forma, não basta ter leis, resoluções e comitês em reuniões permanentes, é preciso definir a gestão de recursos hídricos como um questão de interesse nacional, enquanto as “Águas são muitas; infindas”, como disse Pero Vaz de Caminha.

 

Álvaro José Menezes da Costa é engenheiro civil graduado pela UFAL (Universidade Federal do Estado de Alagoas) com especialização em Aproveitamento de Recursos Hídricos (UFAL) e Avaliação e Perícias de Engenharia (UNIP - Universidade Paulista). É vice-presidente nacional da ABES-Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental desde 2012 e sócio da GO Associados Consultoria Multidisciplinar, responsável pelo escritório Norte/Nordeste. É consultor independente na Álvaro Menezes Engenharia & Consultoria. Foi gestor público no setor de saneamento durante 30 anos, ocupando na CASAL-Cia. de Saneamento de Alagoas os cargos de diretor de operações(1989-1991) e comercial (2007-2008), vice-presidente de gestão operacional (2008-2010) e presidente (2011-2014). Na COMPESA-Cia. Pernambucana de Saneamento foi diretor técnico(1999-2006). Foi presidente do Conselho Fiscal da AESBE–Associação das Empresas de Saneamento Básico Estaduais entre 2011 e 2014 e membro de conselhos de administração da CASAL (1987/1989 e 2011/2014) e da COBEL - Cia. Beneficiadora de Lixo de Maceió (1995/1999).

TAGS: Opinião , Álvaro Menezes , saneamento , água , Brasil
Vai gostar de ver
VOLTAR