Opinião Ana Luís: "A cor das infraestruturas"

11.09.2015

Coincidindo com a conferência anual World Water Week, realizada no passado mês de Agosto, a revista Science publicou seis ensaios referentes a visões contrastantes sobre três temas relacionados com políticas da água: governança - local vs global; monitorização – satélite vs terreno; e infraestruturas nas economias emergentes – verdes vs cinzentas. Valerá a pena explorar um pouco este último tema.

 

Os autores do ensaio a favor da utilização de soluções “verdes” (ex.: zonas de inundação, florestação, utilização de águas pluviais, etc.) apresentam como principais argumentos o facto de estas adotarem uma abordagem ecosistémica, com menores impactes ambientais; de serem mais flexíveis e adaptáveis a alterações das condições de base; e de poderem ser economicamente mais vantajosas.

 

Estes autores reconhecem que em situações que requerem grande fiabilidade, as soluções “cinzentas” (ex.: diques, barragens) serão provavelmente mais eficazes, mas referem também que existe uma lacuna a nível de estudos que comparem, a longo prazo, os benefícios e os custos da adopção de soluções “verdes” com os associados aos tradicionais projetos de engenharia.

 

Já os autores a favor de soluções “cinzentas” apontam a falta de capacidade das soluções “verdes” para proporcionar a necessária segurança na gestão da água face às necessidades expectáveis, referindo que as populações urbanas da China e da Índia terão um crescimento previsto de 292 e de 404 milhões de pessoas, respetivamente, entre 2014 e 2050. Por outro lado, estes autores sublinham ainda que a implementação de soluções “verdes” não depende apenas das características naturais do local em causa, mas também, em larga medida, das capacidades institucionais, políticas e culturais existentes.

 

Pessoalmente, julgo que as visões atrás apresentadas não estão necessariamente em oposição. Não se trata de “verdes” ou “cinzentas”, mas antes “verdes” nuns casos e “cinzentas” noutros ou, ainda, “verdes” complementando “cinzentas”. Sempre que possível, sim, dever-se-iam adotar soluções “verdes”, ou, pelo menos, “cinzentas esverdeadas”.

 

Basta pensar numa bacia hidrográfica para perceber que tudo o que se fizer a montante para preservar o bom estado ecológico e químico das massas de água, para reter água nos solos ou promover a sua infiltração, ou para diminuir tempos de concentração, irá contribuir, em muito, para aliviar as soluções de engenharia que vierem a ser necessárias a jusante para controlo de cheias, reserva e tratamento de água, etc.

 

No entanto, em muitos casos (especialmente quando estão em causa grandes aglomerados populacionais), não há outra forma senão recorrer a obras de engenharia para salvaguardar a segurança da água. Ou seja, um primeiro fator para a escolha do tipo de solução está relacionado com o tipo de ocupação em causa, nomeadamente rural vs urbano.

 

Num excelente artigo publicado na revista Water Research em 2013, David Marlow explora as razões pelas quais o paradigma “verde” em ambiente urbano não vingou ainda, sendo que uma das principais se prende com o facto de, no caso de sistemas já existentes, estarmos reféns do capital já investido.

 

De facto, seria impensável do ponto de vista da sustentabilidade económica desativar todo um sistema, para em seguida o reformular de acordo com um modelo totalmente diferente. Marlow conclui, por isso, que a mudança de paradigma em sistemas já existentes acontece de forma lenta, através de um processo de “hibridização incremental”. O facto de estarmos perante sistemas existentes ou sistemas novos a construir constitui, então, um segundo grande fator que poderá condicionar a escolha de soluções “verdes” ou “cinzentas”.

 

Será importante ter claras estas noções, porque não raramente se pretende ter o melhor dos dois mundos, numa simbiose impossível de “verde” e “cinzenta” em simultâneo. Recordo-me, por exemplo, que há uns anos atrás se pedia nos cadernos de encargos de projetos de regularização fluvial para prevenção de cheias em meio urbano que os canais fossem dimensionados para conter a cheia dos 100 anos e que, simultaneamente, se procurasse preservar as características naturais dos cursos de água (sendo que estas incluem os leitos de cheia – assim chamados porque, precisamente, são zonas que inundam com frequência).

 

No abastecimento e saneamento de água, existem vários casos em que, sob a égide da segurança da água, se aplicaram soluções pesadas, típicas de grandes aglomerados, a pequenas localidades rurais, com consequentes custos não só económicos, como sociais (a nível do serviço prestado) e até ambientais.

 

De tudo isto ressalta então a importância de ponderar o melhor possível o tipo de solução a implementar, sobretudo quando se trata de novos sistemas, onde os graus de liberdade são maiores. Não descurando a segurança das populações, as soluções deverão ser adequadas a cada caso, privilegiando-se, sempre que possível, a adoção de soluções “verdes” (na sua totalidade ou em complemento de outras).

 

Não resisto a terminar recomendando aos leitores de Lisboa e Porto que disfrutem dos magníficos filmes de Jacques Tati, que durante este mês são exibidos na íntegra. Para além das obras de arte cinematográfica que são, estes filmes (ex.: “Trafic – Sim, Sr. Hulot”, “Há festa na aldeia”, “Playtime”) mostram de forma magistral, entre outros aspetos, o contraste entre o “urbano” e o “rural” atrás falado, nas suas diferentes vertentes socio-ambientais.

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, desde 2008, responsável pela Unidade de Planeamento de Ativos da Direção de Gestão de Ativos, e entre 2010 e 2014 coordenou o GAC – Grupo para o estudo das Alterações Climáticas da EPAL. A autora escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Ana Luís , Ambiente Online
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