Opinião Ana Luís: "Previsões, Projeções e Alterações Climáticas: Ceticismo ou crença absoluta?"

11.06.2015

Há 43 anos atrás, no mês de Junho, teve lugar a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente – a qual ficaria conhecida como a Conferência de Estocolmo e cuja data de início (o dia 5) foi escolhida para celebrar o dia mundial do ambiente. Por esse motivo, para este meu primeiro artigo de opinião escolhi falar de um tema que, hoje em dia, é incontornável na agenda mundial: as alterações climáticas.

 

É inegável que as variações climáticas podem ter efeitos devastadores que transcendem a questão ambiental, assumindo por isso um papel de destaque nos planos económico e político. Nos casos em que esses efeitos são já uma realidade, as evidências falam por si – por exemplo, no mesmo dia do mês passado foram notícia as elevadas temperaturas na Índia, causadoras de milhares de mortes, e as cheias nos EUA, provocando uma imensa destruição.

 

Porém, quando tentamos trazer este assunto para o plano das decisões a longo prazo, materializáveis em ações concretas de adaptação aos efeitos das alterações climáticas, gera-se sempre alguma polémica (e refiro-me, em particular, ao sector de abastecimento de água). Na verdade, perante os dados relativos às variações de temperatura e precipitação resultantes dos modelos climáticos e associados a determinados cenários, há tendência para se recair numa de duas situações: ou se acredita que aqueles valores são absolutamente fidedignos e representativos de como será a realidade dentro de 20, 40 ou mesmo 100 anos; ou se adota uma postura de ceticismo dogmático, i.e., de descrença total. Qual a chave, então, para interpretar tais valores?

 

Ao longo dos últimos quatro anos, participei na realização de um estudo de adaptação às alterações climáticas, cuja equipa integrava reconhecidos especialistas na matéria. Não por acaso, nos primeiros tempos desse trabalho conjunto fui constantemente lembrada de que tais valores calculados para a área de estudo não eram previsões, mas sim projeções das variáveis para cada um dos cenários analisados – naquele caso, os cenários A2 e B2 do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC). Ou seja, estes valores deverão ser interpretados - e considerados válidos - à luz de cada cenário.

 

Para minimizar a incerteza no que respeita à tomada de decisões ao nível do planeamento de médio e longo prazo, esta deverá então ser informada pelos resultados relativos a vários cenários e, de preferência, calculados com mais do que um modelo de simulação numérica (uma vez que estes têm também influência nos valores obtidos). Obter-se-á assim uma gama de valores associados aos efeitos das alterações das variáveis climáticas, a qual permitirá balizar as opções de intervenção. 

 

Curiosamente, depois de ter adaptado o meu esquema mental a este conceito das projeções, eis que dou comigo, aquando da preparação de uma candidatura de um outro projeto na área das alterações climáticas ao H2020, a discutir com um Prof. Doutor do Instituto Meteorológico de Berlim sobre a utilização do termo previsão, por ele proposto, em vez de projeção. Fiquei então a saber que uma inovação proposta pelo IPCC e baseada no mais recente conhecimento científico defende que os fenómenos decadais podem ser previstos – pelo que, tratando-se ser esse o horizonte temporal para a modelação no projeto (10 anos), o termo correto seria mesmo previsões.

 

“Provocação do mês”

 

Entre previsões e projeções, a transposição direta dos resultados de estudos de alterações climáticas para os instrumentos de planeamento das empresas gestoras de abastecimento de água carecerá sempre de alguma cautela e de muito bom senso. Excluindo os casos em que os efeitos das alterações climáticas são sentidos já hoje, dever-se-á privilegiar a adopção de planos de adaptação flexíveis – baseados na monitorização contínua desses efeitos e na definição de limiares de alerta – em detrimento de planos rígidos definidos a priori.

 

Numa perspetiva de longo prazo, é reconhecido que os efeitos das alterações climáticas sobre a quantidade e qualidade da água nas origens, bem como sobre a integridade das infraestruturas, poderão afetar, de uma forma transversal, todos os objetivos estratégicos da empresa (operacionais, financeiros e de imagem). Por esse motivo, os efeitos das alterações climáticas deverão ser encarados como um de entre os drivers que poderão condicionar a concretização dos objetivos estratégicos das empresas no futuro e, como tal, integrados no respetivo planeamento estratégico global – ao invés de serem objeto de planos individualizados, comumente denominados por Planos de adaptação às alterações climáticas. Para isso, e à semelhança do que já começou a ser uma tendência em diversos países, será necessário as empresas adotarem abordagens holísticas de construção de cenários e de gestão do risco como suporte ao planeamento estratégico – e não tenho dúvidas de que, em breve, essas tendências começarão também a disseminar-se no plano nacional.

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, desde 2008, responsável pela Unidade de Planeamento de Ativos da Direção de Gestão de Ativos, e entre 2010 e 2014 coordenou o GAC – Grupo para o estudo das Alterações Climáticas da EPAL. A autora escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Ana Luís , alterações climáticas , água
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