Opinião António Bolognesi (Energia - Brasil): Energia e Economia no Brasil

03.02.2016

Como se sabe, hoje a principal fonte de energia elétrica no Brasil é a hidrelétrica, respondendo por cerca de 65% da oferta interna. Essa característica, apesar de representar uma vantagem ambiental e econômica para o país, também implica um maior risco de desabastecimento quando ocorrem períodos de estiagem prolongada como aquele que se observou nos últimos três anos.

 

Nessas condições, as fontes térmica e renováveis representam papel fundamental na segurança energética do Sistema Elétrico Nacional. Essas fontes complementares têm se mostrado cada vez mais importantes em face do esgotamento dos aproveitamentos hidrelétricos com grandes reservatórios de regulação plurianuais.

 

Por outro lado, a expansão da oferta realizada através dos leilões para compra de energia elétrica tem sido realizada por fonte, o que tem beneficiado o desenvolvimento das energias alternativas e evitado a competição entre fontes diferentes. A prática equivocada de competição entre fontes, foi responsável por parte do atraso na implantação da energia solar, eólica e biomassa, cujo aproveitamento é indispensável em face das abundantes disponibilidades naturais que o país possui.

 

O mesmo ocorreu com a geração termelétrica. Desta forma, podemos concluir que se os empreendimentos de fontes complementares tivessem sido implantados a tempo e na quantidade adequada, poderiam ter mitigado grande parte dos problemas decorrentes da estiagem prolongada.

 

No entanto, paralelamente às restrições da geração hidrelétrica impostas pela estiagem e a consequente redução nos níveis e nos volumes armazenados nos reservatórios das usinas, o Brasil vive hoje uma profunda recessão econômica, que implicou na retração de aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto Nacional ao longo de 2015. E tudo indica que valor dessa ordem de grandeza deve se repetir em 2016.

 

Essa situação representou um impacto direto no consumo de energia elétrica, que na média do país, teve uma retração de 5,6% se compararmos janeiro de 2015 com janeiro de 2016. Se considerarmos isoladamente a Região Sudeste, a mais industrializada do Brasil, a retração no consumo foi ainda maior, chegando a 7,1%, resultado dos quase 12% de redução na produção industrial nos últimos 12 meses.

 

Apesar disso, os reservatórios das hidrelétricas ainda não atingiram o volume ideal, e diversas termelétricas ainda continuam despachadas para recuperação dos volumes de água armazenada, de modo a garantir a segurança do Sistema.

 

Por outro lado, em face das chuvas abundantes nos últimos meses, os preços da energia spot caíram da ordem de R$ 388,00/MWh para cerca de R$ 30,00/MWh, impactando diretamente os preços do Mercado Livre de Energia, tanto no curto como no médio prazos.

 

Esse quadro acima exposto, passa a gerar muitas incertezas quanto a expansão da oferta de energia elétrica, uma vez que a retração da economia pode trazer postergação de leilões de compra e atrasos nos cronogramas de obras em andamento, principalmente devido ao fato das maiores empreiteiras do país estarem envolvidas em questões legais decorrentes de processos judiciais em andamento.

 

Desta forma, os investidores começam a reavaliar seus planos de negócios, aguardando definições na politica e na economia do país. No entanto, como os investimentos no setor de energia são todos de longo prazo, algumas oportunidades podem surgir para os mais ousados e que acreditam no fim do atual ciclo negativo e na recuperação da economia nos próximos anos.

 

António Bolognesi é mestre em Administração pela PUC Minas e especialista em Geração de Energia de fontes convencionais e renováveis possuindo uma experiência de mais de 35 anos no sector eléctrico brasileiro. É Diretor da Operman – Engenharia e Consultoria. Foi Director Presidente da EMAE - Empresa Metropolitana de Águas e Energia de São Paulo e Director  da CESP - Companhia Energética de São Paulo. Foi ainda  membro do Conselho de Administração do ONS - Operador Nacional do Sistema Elétrico e da  CPOS - Companhia Paulista Obras e Serviços.

TAGS: Opinião , António Bolognesi , energia , Brasil
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