Opinião António Sá da Costa: "A minha mobilidade elétrica"

05.10.2015

Muitos dos leitores já me conhecem há algum tempo e sabem que, sempre que possível, pauto a minha conduta pessoal pelos valores que defendo, nomeadamente no que se refere à minha utilização pessoal de energia renovável.

 

Na minha casa de Lisboa instalei em 2009 painéis solares para aquecimento das águas sanitárias e também uma caldeira a peletes, que além de back-up, dos painéis solares, nos dias em que o Sol não é suficiente, é a única fonte de aquecimento ambiente. Posso dizer-vos que estou satisfeito com esta decisão, pois além de fazer a opção correta do ponto de vista ambiental, o investimento mostrou-se muito interessante atingindo em seis anos o break even. Como espero que este equipamento dure pelo menos mais 20 anos quer dizer que os meus gastos médios anuais de energia térmica rondarão os 250 €, o que é interessante nos dias que correm e com um impacto ambiental quase nulo.

 

Mas o tema desta crónica refere-se à minha decisão do início deste ano, mas só concretizada em agosto, de ter adquirido para meu uso pessoal um veículo elétrico. Não foi uma decisão fácil pois a estrutura de suporte existente ainda não está totalmente adequada, a autonomia ainda não é semelhante à dos veículos a petróleo, os postos de carregamento ainda não têm a distribuição geográfica mais adequada e ainda falta instalar uma grande parte dos postos de carregamento rápido na via pública, conforme estava previsto no projeto o Mobi.e.

 

Para que o leitor tenha a noção da importância desta rede imagine que só havia postos de abastecimento de gasolina nas cidades e que fora destas apenas existiam duas, uma na A5 e outra na A1 em Aveiras. Nesta situação podem imaginar o que é ir por exemplo de Lisboa a Bragança, ou mesmo ao Porto  se o seu veículo apenas tivesse uma autonomia de 250 a 300 km.

 

Na minha decisão pesou, mas negativamente, o facto de que enquanto não existir esta rede de postos de carregamento rápido e quando tiver de me deslocar a mais de 250 a 300 km terei de ponderar o usar os transportes públicos ou alugar um veículo a petróleo, o que não me parece grave pois normalmente estas deslocações têm uma frequência baixa, portanto aceitável. No meu dia a dia semanal percorro entre 200 e 400 km, o que é compatível com a autonomia do modelo que escolhi e com o facto de que enquanto estou no escritório posso usar os postos públicos junto ao mesmo para repor a carga no meu carro.

 

De referir que cumulativamente aos incentivos em vigor este ano para aquisição de veículos elétricos (IVA e tributação autónoma), o facto de em Lisboa não se pagar o estacionamento na via pública e o gastar 1.5 € para percorrer 100 km, fazendo o carregamento nas horas de vazio em minha casa, foram fatores que tiveram bastante peso na decisão.

 

Estas primeiras semanas foram de adaptação ao estilo de condução, pois um veículo elétrico comporta-se melhor, em termos energéticos, no ciclo urbano do que um veículo a petróleo, ao passo que na estrada e na autoestrada se dá o inverso.

 

Já me comecei a habituar à ideia de não estar sempre preocupado com a carga que ainda resta na bateria pois as coisas evoluem de modo natural. O que passou a ser a minha preocupação principal foi a de saber se o posto de carregamento que pretendo utilizar a seguir estará ou não ocupado por um veículo a petróleo, pois quanto ao seu estado de operacionalidade consigo ter a informação em tempo real via internet.

 

Pois é, as minhas principais preocupações passaram a ser o egoísmo dos utilizadores dos veículos a petróleo que estacionam nos locais de carregamento para veículos elétricos e o estado de operacionalidade dos postos de carregamento.

 

É pena que nem todos os municípios tenham implementado a proibição de paragem nestes locais de veículos não elétricos, como estava previsto no projeto Mobi.e. Daqui apelo para que o façam, em especial à Camara de Lisboa, mas, acima de tudo, apelo essencialmente ao respeito dos outros utilizadores da via pública, no cumprimento básico de uma regra de educação cívica.

 

Lamento que passados alguns anos desde a implementação e términus do programa Mobi.e ainda não esteja definido de como vai ser a expansão e conservação da rede pública de abastecimento e claro como vai ser custeada esta infraestrutura pelos utilizadores. Temos de ter presente que uma grande percentagem dos veículos automóveis privados em Lisboa usa a chamada garagem estrela.

 

Sobre este tema devo referir que até dia 7 deste mês de agosto, decorreu a consulta pública lançada pela ERSE sobre a nova regulamentação da Mobilidade Elétrica. Iniciativa de louvar e certamente o Regulador irá implementar as críticas construtivas que foram feitas. De entre elas saliento uma que tive oportunidade de a fazer e que tem a ver com o facto de que o sistema proposto ser muito pesado, quando o consumo de eletricidade dos veículos elétricos ronda atualmente os 0.004% do consumo nacional e só depois de 2025 este consumo se deverá aproximar de 1% do consumo total nacional, mantendo-se a evolução atual.

 

O novo modelo deverá criar claros e efetivos incentivos ao recurso à mobilidade elétrica, e não o tornar pesado e caro para utilizadores e operadores do mercado. Certamente que o resultado desta consulta pública irá ser incorporado na mova regulamentação a bem de Portugal.

 

Sei que é para já difícil tomar uma opção como a minha, mais por razões psicológicas do que de outro tipo, mas, aos poucos, os veículos elétricos irão surgindo, pois são uma forma mais eficiente de uso da nossa energia. Não se esqueçam que já mais de metade da eletricidade que consumimos é de origem renovável, em 2030 será 80%, o que entre outras coisas faz diminuir a nossa dependência energética do exterior se substituirmos no transporte privado petróleo por eletricidade, e melhor ainda se o transporte público for cada vez mais elétrico, mas isto fica para outro artigo.

 

Eu penso e pratico cada vez mais o que digo na frase:

Portugal precisa da nossa energia.


António Sá da Costa é presidente da APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis e Vice-Presidente da EREF – European Renewable Energy Federation e da ESHA – European Small Hydro Association. Licenciou-se como Engenheiro Civil pelo IST- UTL (Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa) (1972) e tem PhD e Master of Science pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology (USA) em Recursos Hídricos (1979). Foi docente do IST no Departamento de Hidráulica e Recursos Hídricos de 1970 a 1998, tendo sido Professor Associado durante 14 anos; tem ainda leccionado disciplinas no âmbito de cursos de mestrado na área das energias renováveis, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre; Exerceu a profissão de engenheiro consultor durante mais de 30 anos, sendo de destacar a realização de centenas de estudos e projectos na área das pequenas centrais hidroeléctricas; Foi fundador do Grupo Enersis de que foi administrador de 1988 a 2008, onde foi responsável pelo desenvolvimento de projectos no sector eólico e das ondas e foi Vice-Presidente da APE – Associação Portuguesa da Energia de 2003 a 2011.O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. 

TAGS: Opinião , António Sá da Costa , mobilidade elétrica
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