Opinião António Sá da Costa: "Obama e a eletricidade renovável"

02.09.2015

Diz o nosso povo: “mais vale tarde que nunca”. Foi isso o que, na minha ótica, se passou nos EUA, mais concretamente com a política sobre as renováveis apresentada pelo seu presidente Barack Obama no início de agosto passado.

 

Vivi 5 anos naquele país e constatei que sempre que se define uma meta, seja no que for, ela é encarada, pelos cidadãos e pelas empresas, como sendo um mínimo que tem obrigatoriamente de ser ultrapassado.

 

Há muito que os EUA estavam um pouco arredados de se comprometer nesta questão das fontes renováveis no consumo de energia. Oficialmente claro, pois uma percentagem significativa do seu tecido empresarial, e muitos dos norte americanos individualmente, já vinham assumindo práticas conducentes à diminuição das emissões de gases com efeito de estufa (GEE).

 

Isto confirma-se, por exemplo, se verificarmos que sem ter nenhuma regra ou meta impostas, os GEE nos EUA entre 2005 e 2013 diminuíram cerca de 15%.

 

A meta de reduzir as emissões de 32% em 2032 não é por si um fato que mereça especial relevo, pois em Portugal, e na EU, pretende-se reduzir de 40% as referidas emissões de GEE. O que importa sim é a atitude da segunda maior economia do Mundo, e também o segundo maior emissor de GEE.

 

Isto é uma clara evidência que os EUA estão interessados em dar um sinal positivo ao Mundo que se vão esforçar para que a cimeira de Paris no final do ano seja um passo importante no combate às alterações climáticas.

 

Não se pode pensar que isto foi uma decisão tomada por um presidente em fim de mandato só para se mostrar “amigo do Ambiente”. A decisão agora anunciada resulta de um estudo aprofundado iniciado há mais de dois anos (ver www.whitehouse.gov/climate-change).

 

Também não é uma decisão isolada. Em julho passado Hillary Clinton falou do tema, embora de uma forma menos arrojada do que Obama agora fez, mas o certo é que todos os candidatos democratas estão alinhados com esta posição, e alguns dos republicanos deixaram de ser tão assertivos nas suas posições contra este tipo de medidas.

 

Como seria de esperar apareceram logo os defensores do carvão, setor que nos EUA já está em declínio uma vez que na geração de eletricidade está a ser substituído por centrais renováveis e a gás natural, bem como eminentes figuras republicanos que começaram a falar contra, mesmo antes de Obama acabar o seu discurso sobre o tema. A razão principal da argumentação destes detratores das renováveis é o seu custo.

 

Pois quando Obama disse que a utilização de fontes renováveis para gerar eletricidade além de ter um impacto muito positivo na economia e no emprego, ainda trazia uma redução nos custos de geração que excede 10%, estas vozes do contra embatucaram, como aliás seria de esperar, pois a maior parte deles fala da boca para fora sem terem estudado seriamente a questão ou lido estudos fidedignos que suportem as suas opções políticas nesta matéria.

 

Também devo salientar uma das frases proferidas e que, na minha opinião, traduz bem a situação: “Somos a primeira geração a sentir o impacto das alterações climáticas e a última geração que pode fazer qualquer coisa quanto a isso“.

 

Na APREN, e para Portugal, há muitos anos que defendemos uma política de um progressivo aumento da penetração das fontes renováveis na produção de eletricidade, a par de uma política de eficiência energética. Esta posição de Obama vem reforçar a correção da nossa decisão, e mostrar que o caminho tomado em Portugal há muitos anos atrás, e mantido pelos Governos que sucederam, é o correto, pois cada vez mais é verdade que:


Portugal precisa da nossa energia.

 

António Sá da Costa é presidente da APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis e Vice-Presidente da EREF – European Renewable Energy Federation e da ESHA – European Small Hydro Association. Licenciou-se como Engenheiro Civil pelo IST- UTL (Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa) (1972) e tem PhD e Master of Science pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology (USA) em Recursos Hídricos (1979). Foi docente do IST no Departamento de Hidráulica e Recursos Hídricos de 1970 a 1998, tendo sido Professor Associado durante 14 anos; tem ainda leccionado disciplinas no âmbito de cursos de mestrado na área das energias renováveis, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre; Exerceu a profissão de engenheiro consultor durante mais de 30 anos, sendo de destacar a realização de centenas de estudos e projectos na área das pequenas centrais hidroeléctricas; Foi fundador do Grupo Enersis de que foi administrador de 1988 a 2008, onde foi responsável pelo desenvolvimento de projectos no sector eólico e das ondas e foi Vice-Presidente da APE – Associação Portuguesa da Energia de 2003 a 2011.O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. 

TAGS: Opinião , António Sá da Costa , electricidade , energia renovável , Obama , Estados Unidos da Améria , Cimeira de Paris
Vai gostar de ver
VOLTAR