Opinião Carlos Zorrinho (Energia): Alterações Climáticas - da teoria à prática

29.10.2015

Existe hoje uma consciência acrescida na opinião pública mundial sobre os riscos associados ao aquecimento global. Riscos de catástrofes naturais, de volatilidade no acesso à água e outros recursos essenciais, de perturbação da economia, da saúde e da qualidade de vida em geral ou do aumento das desigualdades entre povos e regiões.

 

Vencida a batalha da sensibilização, falta agora vencer a batalha da ação. A batalha da ação em cada um de nós e na forma como adaptamos o nosso dia-a-dia para contribuir para a redução de emissões e a batalha da ação na forma como as instituições e as empresas se adaptam aos novos desafios.

 

O Parlamento Europeu constitui um bom exemplo de tensão entre a teoria e a prática. Na teoria aprovou por larga maioria uma resolução sobre aquilo que os eurodeputados esperam que seja alcançado na cimeira do clima em Paris. Uma resolução que define metas claras para a redução de emissões e para as políticas de transição e de apoio aos países em vias de desenvolvimento.

 

Na prática cada resolução resulta sempre dum debate aceso que reflecte a multiplicidade de perspectivas e interesses envolvidos neste desafio global.

 

A troca entre benefícios imediatos e ganhos futuros é um processo que exige grande audácia política. A tendência para se ser a favor de medidas no plano dos princípios e de excepções no plano concreto é enorme.

 

Neste texto enuncio alguns exemplos dessas tensões, que não têm impedido avanços significativos em domínios como a transição energética, a economia circular, a redução do excesso de certificados de emissões no mercado ou o controlo efetivo das emissões não apenas de carbono, mas também de outros poluentes que são negativos para a saúde e para a qualidade de vida.

 

Por exemplo no controlo de emissões. Como evitar o dumping ambiental que ameaça sobretudo a indústria europeia? Fará sentido incluir as emissões geradas por atividades que são determinantes para o povoamento do território como a agricultura tradicional? Não deveriam os produtos importados pela UE produzidos segundo normas ambientais mais flexíveis serem sujeitos a uma taxa de compensação que revertesse por exemplo para o fundo verde de apoio à sustentabilidade nos países em vias de desenvolvimento? Deverá a Europa exigir a todos os construtores mundiais de automóveis as mesmas regras que exige aos seus ou deve aproveitar a oportunidade para liderar a revolução na mobilidade?

 

Estes são apenas alguns exemplos de tensão entre os ganhos futuros e os interesses imediatos. O custo/benefício da liderança social e tecnológica tem sempre pelo meio a dificuldade que resulta do desfasamento entre o momento em que ocorrem os custos e o momento em que ocorrem os benefícios. Contudo, no domínio das alterações climáticas, os “custos evitados” hoje podem ser incomensuráveis amanhã.

 

Entre a teoria e prática há um longo caminho que tem que ser percorrido. A decisão do Conselho Europeu de duplicar os limites de emissões para veículos a Diesel mostra bem que nem sempre a visão de futuro vence.

 

Temos por isso que lutar ainda mais e celebrar cada vitória, como um passo no caminho certo.

 

Carlos Zorrinho, eurodeputado do PS, membro da Comissão da Indústria, da Investigação e da Energia no Parlamento Europeu, é licenciado em Gestão de Empresas e doutorado em Gestão de Informação pela Universidade de Évora. Foi professor catedrático do Departamento de Gestão da Universidade de Évora, deputado à Assembleia da República pelo PS (1995-2002 e 2004-2014), líder Parlamentar do Partido Socialista na Assembleia da República (2011-2014) e, no Governo, ocupou as funções de Secretário de Estado da Energia e da Inovação (2009 e 2011) e secretário de estado Adjunto da Administração Interna entre 2000 e 2002. O autor escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Carlos Zorrinho , alterações climáticas
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