Opinião Carlos Zorrinho (Energia): Clima Político (Trump e o Acordo de Paris)

12.06.2017

A concretização da ameaça de Donald Trump de retirar o compromisso dos EUA com o Acordo de Paris para as alterações climáticas não teve impactos imediatos nos dados meteorológicos do planeta, mas modificou e muito o clima político global e a tendência para desenvolvimentos geoestratégicos que virão a condicionar o futuro do nosso planeta em geral e o sucesso no combate ao aquecimento global em particular.     

 

Destaco neste texto três tendências pesadas e que se me afiguram de grande relevância.

 

Em primeiro lugar a União Europeia, líder global na sustentabilidade, deu uma resposta forte e coesa como há muito não se via na geopolítica global. Ficou para a história o oportuno desafio de Emmanuel Macron, apelando a Trump, mas também aos americanos, para se juntarem a uma plataforma que permita que o planeta seja grande de novo, glosando a frase de campanha de Trump – “Make America Great Again / Make the Planet Great Again”. No cômputo geral as respostas da Comissão Europeia, dos Governos, das agências e das organizações da sociedade civil europeia foram convergentes, claras e mobilizadoras.   

 

Em segundo lugar, a China e a Índia, não hesitaram um minuto em ligar o pisca-pisca para sinalizar a sua disponibilidade e vontade de ultrapassar os Estados Unidos na fronteira da transição tecnológica, caso estes insistam em encostar à berma ou em recuar na caminhada. Hoje a transição energética e a revolução digital convergem para encontrar modelos de organização social mais eficientes e menos poluidores. Quem liderar estes sectores, liderará a indústria do futuro e chineses demonstraram terem disso plena consciência.

 

A sociedade civil e empresarial americana também intuiu a importância do que está em jogo e organizou-se de forma rápida e impressiva para suprir a falta de visão ou a distorção de interesses da sua administração. Centenas de cidades e mais de uma dezena de Estados, além de grandes empresas e líderes empresariais pronunciaram-se pela continuação das práticas que permitem cumprir o acordo de Paris.

 

O “atentado” contra o clima feito por Trump ainda não alterou o clima em si mesmo, embora possa ter um impacto muito nefasto. Alterou contudo o clima político e aumentou a consciência global de que é preciso responder ao aquecimento global de forma determinada. Temos ao menos um efeito colateral positivo da decisão de Trump, no meio de tantos efeitos diretos potencialmente bem negativos.

 

Carlos Zorrinho, eurodeputado do PS, membro da Comissão da Indústria, da Investigação e da Energia no Parlamento Europeu, é licenciado em Gestão de Empresas e doutorado em Gestão de Informação pela Universidade de Évora. Foi professor catedrático do Departamento de Gestão da Universidade de Évora, deputado à Assembleia da República pelo PS (1995-2002 e 2004-2014), líder Parlamentar do Partido Socialista na Assembleia da República (2011-2014) e, no Governo, ocupou as funções de Secretário de Estado da Energia e da Inovação (2009 e 2011) e secretário de estado Adjunto da Administração Interna entre 2000 e 2002.

TAGS: Opinião , Carlos Zorrinho , Trump , Paris
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