Opinião Carlos Zorrinho: "Interligações energéticas e estratégia económica"

03.09.2015

Num inspirado artigo publicado dia 29 de agosto no Semanário Expresso, o Presidente da Comissão Europeia Jean Claude Juncker sinalizou os acordos estabelecidos para incrementar as interligações elétricas e de distribuição de gás entre a Península Ibérica e o resto da Europa como um exemplo de referência na prioridade europeia de criação de um mercado único da energia (União da Energia). Para Juncker "A Península ibérica mostra-nos o caminho (...) graças às interligações (...) a península deixa de estar isolada e o continente europeu nunca mais estará à deriva".

 

Palavras fortes, num texto intitulado "Acabemos com a Jangada de Pedra", em que Juncker evidencia a sua convicção de que a amarração económica é a maior garantia para que a "viagem" imaginada por Saramago, não se traduza num afastamento estrutural da Península em geral e de Portugal em particular das oportunidades de crescimento e desenvolvimento no quadro dos mercados Europeus.

 

Concordando com a visão de Jean Claude Juncker gostaria de estar tão optimista quanto ele em relação à concretização das interligações previstas, mas não estou.

 

A experiência mostra que nas negociações internacionais não basta assinar acordos ou memorandos de entendimento. É preciso criar no terreno a dinâmica económica que pela pressão que exerce, torna irrevogável a concretização dos acordos celebrados. Uma dinâmica que, quer no que diz respeito ao aproveitamento do conhecimento e da capacidade produtiva que temos nas energias renováveis, quer no desenvolvimento do sistema de distribuição de gás, o governo não tem conseguido gerar.

 

Acredito que haja um esforço sério do Ministro do Ambiente e Energia e do seu Secretário de Estado para colocarem a sustentabilidade energética como um pilar determinante da estratégia económica do País. O problema principal está na fragilidade e na dificuldade de delimitar essa estratégia. Do centro do Governo apenas surgem ações avulsas. O desígnio económico do actual governo é difuso. Diria mesmo casuístico e efémero. Serve mais negócios concretos do que visões agregadoras.

 

Ora sem uma estratégia interna forte e clarificadora que mobilize os agentes e determine as prioridades é muito difícil ter força negocial externa para afastar obstáculos e atrair financiamentos.

 

Temos um acordo para reforçar as interligações e o papel de Portugal na União da Energia. Temos a vontade expressa do Presidente da Comissão Europeia para que isso aconteça. Precisamos de uma governação à altura, com visão e ambição para aproveitar a oportunidade.

 

Carlos Zorrinho, eurodeputado do PS, membro da Comissão da Indústria, da Investigação e da Energia no Parlamento Europeu, é licenciado em Gestão de Empresas e doutorado em Gestão de Informação pela Universidade de Évora. Foi professor catedrático do Departamento de Gestão da Universidade de Évora, deputado à Assembleia da República pelo PS (1995-2002 e 2004-2014), líder Parlamentar do Partido Socialista na Assembleia da República (2011-2014) e, no Governo, ocupou as funções de Secretário de Estado da Energia e da Inovação (2009 e 2011) e secretário de estado Adjunto da Administração Interna entre 2000 e 2002. O autor escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.          

TAGS: Opinião , Carlos Zorrinho , energia
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