Opinião Ana Luís (Água - Gestão de Ativos Infraestruturais): Jogar com as melhores cartas

21.10.2015

Muito já se disse, e bem, sobre a importância da Gestão de Ativos após o encerramento de um ciclo de forte infraestruturação (como o que se verificou em Portugal no setor do abastecimento e saneamento de água). Com efeito, se os ativos existem, devem ser geridos numa ótica de criação de valor para clientes e acionistas.

 

Poucas vezes, porém, se fala da importância da Gestão de Ativos durante o próprio processo de infraestruturação – correspondente às fases de Planeamento (conceção) e de Aquisição / Construção.

 

Talvez tal seja explicado pelo facto de estas fases poderem durar, digamos, até cerca de 5 anos, contrastando com as fases seguintes (Manutenção / Reabilitação / Desativação) que podem estender-se por várias décadas.

 

É também verdade que o conceito original de Gestão de Ativos na “corrente” australiana (uma das grandes escolas desta filosofia) derivou precisamente das áreas de Manutenção. Mas, à semelhança da “corrente” inglesa (outra grande escola), rapidamente o conceito assumiu esta visão mais ampla de abranger todas as etapas do ciclo de vida dos ativos, com particular ênfase para o Planeamento. Não foi por acaso.

 

Se, quando aplicada à nossa vida, faz sentido a frase que alguém proferiu em jeito de provérbio chinês: “a verdadeira felicidade não consiste em ter o melhor jogo nas mãos, mas antes em saber jogar bem com as cartas que se tem”, o mesmo já não sucede em relação aos ativos.

 

Reconhecidamente, nos setores de capital intensivo como é o caso do abastecimento de água e saneamento de águas residuais, não só podemos como temos o dever de tentar “escolher o melhor jogo”, tomando decisões nas fases de Planeamento e Construção das infraestruturas como: a conceção de sistemas com origens mais ou menos centralizadas; a instalação de tratamento secundário ou terciário; as previsões mais ou menos realistas de evolução demográfica e de consumos; a escolha dos materiais e equipamentos a aplicar; etc.

 

É deste “jogo inicial” que em larga medida vai depender, posteriormente, o maior ou menor grau de adequação dos ativos à exploração; o maior ou menor número de avarias; ou o maior ou menor gasto de energia, por exemplo. No limite, podemos afirmar que a forma como os ativos são geridos nas fases de pré-infraestruturação tem um papel preponderante para as entidades gestoras, tanto a nível do serviço a prestar às populações, como do retorno dos investimentos efetuados.

 

Ana Luís é Engenheira Civil (1996, IST), Mestre em Engenharia Mecânica (1999, IST) e Doutorada em Gestão do Risco (2014, Universidade de Cranfield). Em 1996 integrou os quadros da Gibb Portugal, onde participou/ coordenou projetos nas áreas de regularização fluvial, planos de segurança de barragens, planos de bacia, sistemas de informação geográfica, conceção de sistemas de abastecimento de água, entre outros. Em 2006 integrou os quadros da EPAL, tendo participado na génese da Gestão de Ativos e desenvolvido modelos de análise de risco e multicritério para apoio à decisão sobre os investimentos. É, desde 2008, responsável pela Unidade de Planeamento de Ativos da Direção de Gestão de Ativos, e entre 2010 e 2014 coordenou o GAC – Grupo para o estudo das Alterações Climáticas da EPAL. A autora escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Ana Luís , infra-estruturas , gestão de activos , água
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