Opinião de Nelson Lourenço: "Os animais de estimação e os desafios da higiene urbana"

31.08.2015

Quando abandonados nos espaços públicos, os dejetos dos animais de estimação apresentam perigosidade para a saúde humana, podendo em determinados casos ser fatais, por possuírem elevados teores de microrganismos patogénicos.

 

Ainda que exista um crescente reforço a nível da sensibilização para os proprietários dos cães (sobretudo estes), relativamente à limpeza e higiene urbana, ainda é necessário melhorar nesta área. Os cidadãos, ao não cumprirem, de acordo com os regulamentos municipais, determinadas obrigações, como seja o recolher dos dejetos e a sua deposição nos locais apropriados, incorrem numa contraordenação.

 

Dada a sua representatividade, como resíduos urbanos, os dejetos dos cães representam uma fonte de matéria orgânica e nutrientes que, quando convenientemente tratados, poderão originar fertilizantes orgânicos para aplicação, por exemplo, nos espaços verdes camarários.

 

Claro está, como em qualquer fluxo e fileira de resíduos, exige-se uma gestão integrada destes materiais. Quer nos canis municipais, quer nos espaços públicos – passeios, espaços verdes, etc., a sua gestão representa um custo para as autarquias e um passivo ambiental. É do conhecimento das autarquias e/ou das empresas municipais de gestão de resíduos e limpeza urbana, de que os dejetos caninos contribuem (de forma variável) para a fatura respeitante aos custos de limpeza e higiene urbana, nomeadamente: sacos, dispensadores, recipientes, lavagens de arruamentos, painéis informativos, dispensadores, trabalho dos cantoneiros, etc. Há que aliviar esta despesa pública.

 

No seguimento do que tenho abordado em artigos anteriores, os dejetos dos animais de companhia, como cães e gatos, (à semelhança dos estrumes), podem ser estabilizados e valorizados. Um tratamento biológico – a vermicompostagem, com ou sem incorporação de outros materiais (de preferência secos), poderá redundar em tal.

 

O dimensionamento de uma unidade de tratamento de dejetos por vermicompostagem envolve o conhecimento da sua capitação. Considera-se que um metro quadrado apresenta diariamente a capacidade para tratamento de dejetos de aproximadamente oito cães. Por exemplo, um projeto local para tratamento de dejetos numa comunidade com 50 cães necessitará de uma área aproximada de 8,5 metros quadrados para tratar o equivalente a 15 quilos de dejetos produzidos diariamente.

 

Não está em causa onerar a autarquia em pessoal especializado, mas sim em transferir algumas das competências dos cantoneiros para outras áreas/tarefas, gerindo os recursos humanos de uma forma sustentável, na medida em que as tarefas se resumirão à aplicação dos dejetos, ao seu humedecimento (se necessário) e à recolha periódica do vermicomposto, procedimentos facilmente transmitidos com formação adequada.

 

A vermicompostagem dos dejetos representa um investimento que rapidamente é recuperado, na medida em que o sistema se paga a si próprio, por um lado, a partir da redução dos encargos com o envio dos dejetos para aterro sanitário, e por outro, com a redução dos encargos de manutenção dos espaços verdes – fertilizados com o vermicomposto obtido.

 

Do ponto de vista do que deve ser a visão integrada de uma câmara e/ou empresa municipal, estes aspetos acabam por fazer toda a diferença na hora de avaliar projetos sustentáveis, tanto ambiental, como economicamente.

 

Provocação do mês

 

Estes projetos, de acordo com o Regime Geral de Gestão de Resíduos, encontram-se isentos de licenciamento ambiental, na medida em que os resíduos são tratados no próprio local de produção, o que representa uma vantagem por não gerarem encargos desnecessários e sobretudo burocráticos. Haja visão de autarcas e técnicos para iniciar um projeto-piloto e assim cumprir o PERSU 2020.

 

Nelson Lourenço é Engenheiro do Ambiente, Mestre em Gestão Sustentável dos Espaços Rurais, Formador e Doutorando em Ciências e Tecnologias do Ambiente. É Director-geral da FUTURAMB e especialista em Vermitecnologia. Possui vários anos de experiência na utilização de espécies autóctones de minhocas no desenvolvimento de programas, processos e tecnologias para a resolução de impactes ambientais a nível da sociedade e dos ecossistemas provocados pelos resíduos orgânicos e águas residuais. Concentra a sua actividade na gestão e tratamento de resíduos orgânicos, gestão e tratamento de águas residuais, agricultura orgânica e biologia e ecologia de minhocas. O autor escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Nelson Lourenço , resíduos , higiene urbana , animais de estimação
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