Opinião de Nelson Lourenço: "Resíduos orgânicos e produção de culturas sustentáveis"

04.06.2015

A procura da sustentabilidade na agricultura e horticultura é um objetivo tangível e médio e longo prazo. De facto, a gestão dos fatores de produção – água, nutrientes e energia, deverá ser realizada tendo em vista a melhoria da fertilidade, produtividade e qualidade do solo, numa perspetiva de minimização dos impactes ambientais, eficiência na gestão dos recursos e dinamização da economia circular.

 

O solo, enquanto recurso não renovável à escala humana, reveste-se de grande importância para a fixação e nutrição das culturas. Contudo, vale a pena lembrar que para o cumprimento do seu ciclo de vida, as plantas apenas necessitam de água, nutrientes e luz. O solo é perfeitamente dispensável.

 

Esta premissa é particularmente útil em regiões e territórios em que o melhoramento ambiental (por exemplo, aumento da fertilidade, correção da acidez ou descontaminação) acarreta elevados custos ou em situações de simples ausência de espaço para cultivo.

 

De entre as tecnologias em expansão para cultivo sem solo, encontra-se a vermiponia. Este método, resulta da fusão entre a vermicompostagem e a hidroponia orgânica. Sendo as perdas de nutrientes praticamente inexistentes – o seu ciclo acompanha o ciclo da água, e o consumo energético negligenciável (pode ter fontes renováveis), pode-se afirmar que o modelo é realisticamente sustentável e autossuficiente. As únicas perdas são contabilizadas pela evaporação e evapotranspiração, fenómenos dependentes de fatores climáticos e intrínsecos da cultura.

 

Na vermiponia meio de suporte das plantas é o vermicomposto – no qual por ação da água, se extraem os nutrientes para a solução nutritiva e desta novamente para a planta, bem como diversos materiais de natureza orgânica – fibra de coco, ou inerte – lã de rocha. No entanto, numa perspetiva de gestão de resíduos e valorização dos materiais, aconselha-se a opção pelos materiais orgânicos.

 

Sou um acérrimo defensor das tecnologias e processos in-situ, de baixo custo de investimento e operacionalidade, aliadas à eficiência e eficácia, respeitando os princípios da sustentabilidade ambiental, económica e social. Infelizmente, não são estas as diretrizes que por norma, são aplicadas em Portugal.

 

Um dos maiores desafios para a sociedade é compreender que a química, física e biologia dos materiais acaba por influenciar o que somos enquanto seres vivos. Parafraseando Lavoisier “na Natureza nada de perde nada se cria, tudo se transforma.”

 

Por este facto, mais do que interpretar os resíduos e a água enquanto recursos, há que interpretá-los como fontes de matéria orgânica e nutrientes minerais que, quando devidamente tratados (i.e. a vermicompostagem), servirão como base para a produção de fertilizantes orgânicos – o vermicomposto.

 

Este, por inerência, por ação da água, converte-se em soluções nutritivas que permitem o crescimento e desenvolvimento da planta, numa ótica de gestão dos lixiviados produzidos. É isto a vermiponia.

 

Os elementos químicos, fazendo parte, por exemplo, dos resíduos orgânicos ou águas residuais, são a base da vida e a sua transformação não pode ser confundida com a sua perda. Por vezes, interrogo-me sobre o porquê de, em Portugal, se discutir essencialmente o supérfluo e não o essencial. Isto é o essencial.

 

Deveriam ser discutidos temas como a micro e pequena-escala dos setores de tratamento e valorização de resíduos, de tratamento de efluentes e de produção de culturas, ao invés da larga escala ou escala industrial. Só assim se aumentará a eficiência dos processos, se reduzirão custos e se trará equilíbrio sócio-ambiental: "Age localy, think globaly".

 

Nelson Lourenço é Engenheiro do Ambiente, Mestre em Gestão Sustentável dos Espaços Rurais, Formador e Doutorando em Ciências e Tecnologias do Ambiente. É Director-geral da FUTURAMB e especialista em Vermitecnologia. Possui vários anos de experiência na utilização de espécies autóctones de minhocas no desenvolvimento de programas, processos e tecnologias para a resolução de impactes ambientais a nível da sociedade e dos ecossistemas provocados pelos resíduos orgânicos e águas residuais. Concentra a sua actividade na gestão e tratamento de resíduos orgânicos, gestão e tratamento de águas residuais, agricultura orgânica e biologia e ecologia de minhocas. O autor escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: resíduos , opinião Nelson Lourenço
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