Opinião Filipe Carraco: "A problemática das lamas de ETAR"

21.07.2015

Inicialmente, quando as primeiras ETAR foram construídas, a preocupação de poupança estava associada essencialmente aos custos de investimento, pelo que os projectistas optavam prioritariamente por tecnologias economicamente viáveis do ponto de vista construtivo. Actualmente, as ETAR possuem elevados custos de manutenção e de operação, nomeadamente, custos de mão-de-obra, encargos com energia, custos associados aos reagentes químicos e com o tratamento e destino final das lamas.

 

A relação entre o desempenho financeiro e o desempenho ambiental originou o conceito de ecoeficiência. A ecoeficiência é, portanto, vista como uma filosofia que desafia o mundo empresarial a atingir mais valor, utilizando menos recursos (materiais e energia) e minimizando os seus impactos ambientais.

 

O crescente aumento da produção de lamas tornou-se, nos últimos anos, o maior constrangimento da operação de ETAR, devido ao impacto ambiental do respectivo destino final e ao custo económico associado ao seu tratamento, transporte e deposição final. Desta forma, um tratamento mais sustentável passará pela reutilização de nutrientes, água e energia, minimizando o impacto ambiental das ETAR, como por exemplo nas emissões de gases de estufa.

 

É necessário, assim, intensificar a abordagem a tecnologias inovadoras para uma concepção sustentável das ETAR. Para tal, a avaliação da ecoeficiência de uma ETAR deverá englobar indicadores de eficiência não apenas baseados na fase líquida, como também, fase sólida, gasosa, energética e química.

 

A recuperação de nutrientes e a reutilização das lamas de ETAR na agricultura é uma forma de fechar o ciclo de nutrientes, como o fósforo e o azoto. O caso do fósforo, que é extraído da natureza para ser aplicado como fertilizante agrícola, é, após consumo humano, libertado no sistema de drenagem pública de águas residuais para tratamento em ETAR, concluindo o seu ciclo na natureza.

 

Perante este novo paradigma, torna-se importante também considerar uma visão integradora de todo o sistema de gestão de lamas, assente em 5 passos fundamentais: 1 – redução da quantidade de lamas produzidas; 2 – Atingir melhores eficiências no tratamento das lamas; 3 – Transformação do produto, criando valor acrescentado; 4 – Fim do estatuto de resíduos, dinamizando um novo mercado para o produto; 5 – Sustentabilidade, avaliando a tecnologia com base nos seus impactos para a sociedade, economia e ambiente.

 

A evolução do conceito sustentabilidade associado à indústria da água e às ETAR é um assunto que tem sido muito debatido nos últimos anos, contudo, ainda existem poucos estudos elaborados para avaliar a ecoeficiência dos sistemas de tratamento das ETAR e, até à data, a quantificação da ecoeficiência de sistemas de gestão de lamas ainda não foi avaliada.

 

Relativamente à procura da melhor eficiência de recuperação de recursos, o Decreto-Lei n.º 73/2011 de 17 de Junho apresenta uma metodologia de reclassificação de resíduos que têm elevado potencial para recuperação para passarem a serem considerados como produtos, perdendo o seu estatuto como resíduo ou o Fim do Estatuto de Resíduos (FER).

 

A validação desta reclassificação, a cargo da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), será determinante para recuperação de nutrientes e outros recursos nos sistemas de tratamento de lamas nas ETAR. Assim, as lamas geradas nas ETAR poderão passar a ser considerados como matéria-prima e potenciais fontes de rendimento.

 

Quanto tempo iremos precisar em Portugal para dar resposta a este ambicioso desafio?

 

Filipe Carraco, sócio gerente da CTGA –Centro Tecnológico de Gestão Ambiental, Lda, desde Março de 2007, é mestre em Engenharia Civil, na especialidade de Hidráulica, Recursos Hídricos e Ambiente pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. É pós-graduado em Direcção de Empresas – Indústria da Construção pela Faculdade de Economia do Porto. É co-fundador e sócio-gerente da ENVIMAN – Manutenção de Sistemas Ambientais, Lda., desde Outubro de 2013 e integra a Direcção do Núcleo Regional do Centro da APRH (Associação Portuguesa de Recursos Hídricos).

TAGS: Opinião , Filipe Carraco , CTGA
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