Opinião Jaime Melo Baptista: 100 000 dólares por uma boa ideia sobre água

05.03.2018

O Grande Prémio Mundial da Água Rei Hassan II é uma das mais importantes distinções mundiais no sector. Foi instituído pelo Governo de Marrocos e pelo Conselho Mundial da Água, em 2003, para premiar uma boa ideia ligada à cooperação e à gestão eficaz dos recursos hídricos. 

 

O tema para esta sexta edição é “Cooperação e solidariedade nos domínios da gestão e do desenvolvimento dos recursos de água”. O vencedor irá receber um prémio de 100.000 dólares que será entregue durante a cerimónia de abertura do próximo Fórum Mundial da Água, a ser realizada em Brasília, entre os dias 18 a 23 de março de 2018.

 

A contribuição pode surgir a vários níveis, científico, económico, técnico, ambiental, social, institucional, cultural ou até político.

 

Em 2003 Jerson Kelman, Presidente Diretor da Agência Nacional de Águas do Brasil, e Mahmoud Abu-Zeid, Ministro dos Recursos Hídricos e Irrigação do Egito, partilharam este prémio pelos feitos significativos relacionados com a água e respetivas contribuições para a melhoria da gestão dos recursos hídricos.

 

Em 2006 Torkil Jønch Clausen, à época Diretor de Desenvolvimento e CEO do DHI Water and Environment, recebeu o prémio pela sua contribuição no avanço da gestão integrada dos recursos hídricos à escala global.

 

Em 2009 Abdulatif Youssef Al-Hamad, do Conselho do Fundo Árabe para o Desenvolvimento Económico e Social, recebeu este prémio pela sua contribuição impar no avanço da cooperação e solidariedade as áreas de desenvolvimento e gestão dos recursos hídricos.

 

Em 2012 o Observatório do Saara e do Sahel (SSO) recebeu o prémio por ter melhorado os sistemas de alerta precoce e monitorização para a agricultura, atribuindo especial importância aos aquíferos das grandes bacias partilhadas e à implementação do quadro de parceria Norte-Sul, com o objetivo de reforçar a luta contra a desertificação e reduzir o impacto das secas.

 

Em 2015 Abdou Maman, diretor do Tech Innov Niger, recebeu o prémio pelo seu sistema integrado e inovador de irrigação remota, com um dispositivo que usa telemóveis e painéis solares para que os agricultores controlem remotamente a irrigação de suas culturas. A solução permite-lhes economizarem tempo e energia, expandirem a área de irrigação, aumentarem a produção e o rendimento e agilizarem a gestão da água para irrigação.


É notável que o Governo de Marrocos, aqui mesmo ao lado, juntamente com o Conselho Mundial da Água, se empenhe tanto na inovação dos recursos hídricos.


Provocação do mês:

 

Em Portugal, a autoridade de recursos hídricos, que já foi autónoma e agora está integrada na autoridade ambiental, tem a responsabilidade do desenvolvimento e aplicação das políticas nacionais no domínio dos recursos hídricos e da coordenação geral, planeamento e licenciamento na gestão dos recursos hídricos, com vista a garantir, designadamente, a proteção, o ordenamento e o planeamento.

 

Deve velar, assim, pela preservação dos nossos preciosos recursos hídricos e assegurar a racionalidade da sua utilização.

 

É um facto que, a partir dos anos 70, Portugal foi liderante no pensamento conceptual sobre a gestão de recursos hídricos, influenciado pela escola americana, e que aprovou já neste século uma Lei da Água moderna e consistente com o quadro legislativo europeu.

 

Mas muitos de nós estão preocupados com o desempenho da gestão dos recursos hídricos na última década. Com os avanços e recuos institucionais, a insuficiência de intervenção e de fiscalização, e com o pecado de tantos anos sem monitorização dos recursos hídricos. Não é relevante procurar culpados, mas sim encontrarmos em conjunto um modelo mais eficaz. E talvez possamos colocar os olhos nas prioridades e no empenho dos nossos vizinhos do Sul.

 

Jaime Melo Baptista, engenheiro civil especializado em engenharia sanitária, é Investigador-Coordenador do LNEC, Presidente do Conselho Estratégico da PPA e Comissário de Portugal ao 8.º Fórum Mundial da Água 2018. Foi membro do conselho de administração e do conselho estratégico da IWA. Foi presidente da ERSAR (2003-2015), responsável pelo Departamento de Hidráulica (1990-2000) e pelo Núcleo de Hidráulica Sanitária (1980-1989) do LNEC, diretor da revista Ambiente 21 (2001-2003) e consultor. Foi distinguido com o IWA Award for Outstanding Contribution to Water Management and Science.

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