Opinião Jaime Melo Baptista (Água): Donald Trump e o ambiente

14.11.2016

Sou dos que ainda não recuperaram da eleição de Donald Trump. Demasiado mau para ser verdade, mas o povo é quem mais ordena. Ou, no caso americano, os seus representantes é quem mais ordenam, o que não é exatamente a mesma coisa. Como é que um grande país com 320 milhões de habitantes apresenta estas duas personagens à presidência? Acredito que existam uns quantos milhões de cidadãos com melhor perfil. Seja como for, nada como encarar a realidade.

 

Tento imaginar a primeira reunião de Donald Trump com o novo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. Imagino-os a falarem dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a nova agenda mundial 2016-2030. Mas já não consigo prever como decorrerá uma conversa sobre como erradicar a pobreza, eliminar a fome, ter saúde de qualidade, ter educação de qualidade, assegurar igualdade de género, proporcionar água potável e saneamento, desenvolver as energias renováveis e acessíveis, e promover o trabalho digno e crescimento económico. Ou promover a industrialização inclusiva e sustentável, reduzir as desigualdades, promover cidades e comunidades sustentáveis, e fazer gestão sustentável com uso eficiente dos recursos naturais. Ou ainda integrar medidas relacionadas com alterações climáticas nas políticas, estratégias e planeamentos nacionais, proteger a vida marinha, defender a vida terrestre, promover paz, justiça e instituições eficazes, e fazer parcerias para a implementação dos objetivos.

 

Ou tento relembrar o que Donald Trump foi dizendo ao longo dos últimos tempos sobre o ambiente. Por exemplo as suas promessas de acabar com a conhecida Environmental Protection Agency, de regressar à extração intensiva do carvão, de os EUA abandonarem o acordo de Paris sobre alterações climáticas, de reduzir o investimento em energias renováveis e de recuperar o projeto de atravessar metade do país com um oleoduto. Aguardemos pelos sinais da conferência de Marrakech.

 

O que pensará Donald Trump das questões da água? Que é um recurso indispensável à Humanidade e deve ser merecer a sua atenção? Ou pensará antes que o mesmo volume de gasolina vale mil vezes mais e é portanto muito mais interessante comercialmente?

 

O mundo está realmente estranho. Os meus valores morais para uma convivência saudável dentro da sociedade parecem estar antiquados, mas não tenciono prescindir deles. Nunca gostei da expressão tão americana “Be a winner!”, como se o mundo se devesse agrupar em ganhadores e perdedores. Mas depois destas eleições ainda gosto menos.


Provocação do mês:

Esta tendência de lideranças populistas parece querer aumentar, na Europa e no mundo. Será que a ciência tem aqui um papel? Ou mesmo um papel ainda mais importante do que habitualmente? Acredito que sim. Acredito que a ciência tem urgência em comunicar o conhecimento à sociedade, o que nem sempre faz bem. Será hoje especialmente importante que os agentes da ciência saibam disseminar o conhecimento pela sociedade em geral, mas decodificado, usando linguagem acessível e assim desenvolvendo a cidadania. Contra o populismo e tudo o que ele nos traz. O conhecimento é o melhor antídoto do populismo. A ignorância é o seu melhor alimento!

 

Jaime Melo Baptista, engenheiro civil especializado em engenharia sanitária, é Investigador-Coordenador do LNEC e Presidente do Conselho Estratégico da PPA. É membro do conselho de administração e do conselho estratégico da IWA. Foi presidente da ERSAR (2003-2015), responsável pelo Departamento de Hidráulica (1990-2000) e pelo Núcleo de Hidráulica Sanitária (1980-1989) do LNEC, diretor da revista Ambiente 21 (2001-2003) e consultor. Foi distinguido com o IWA Award for Outstanding Contribution to Water Management and Science.

TAGS: Opinião , Jaime Melo Baptista , água , Donald Trump , eleições , Estados Unidos da América
Vai gostar de ver
VOLTAR