Opinião Jaime Melo Baptista (Água): Serviços de águas em direção à economia circular? (Parte 2: energia)

16.05.2017

Será brevemente apresentado o Plano de Ação para a Economia Circular pelo Ministério do Ambiente, focado nos setores que já têm atividade neste domínio e que mais podem ganhar com a economia circular. Para isso foi criado o Fundo de Inovação, Tecnologia e Economia Circular, com uma dotação de 15 milhões de euros, que pretende estimular a cooperação entre instituições de ensino superior, centros tecnológicos e tecido empresarial. Aparentemente serão priorizadas a área da construção e os temas que envolvem os consumidores.

 

E o setor da água? Como referi anteriormente (Como evoluir para a economia circular nos serviços de águas?), as entidades gestoras dos serviços de águas podem ter um papel importante na economia circular. Abordei na altura a questão da água em si, e descrevi seis oportunidades que importa ponderar (proteção das bacias hidrográficas e adoção de infraestruturas naturais; reutilização de águas residuais para a agricultura e a aquacultura; reutilização de águas residuais para a indústria; reutilização de águas cinzentas para a agricultura e a aquacultura; reutilização de águas cinzentas para água não urbana potável; e aproveitamento da água da chuva).

 

Mas sabemos que os serviços públicos de abastecimento de água e saneamento de águas residuais consomem muita energia e também contribuem para as emissões de gases de estufa através das águas residuais não tratadas. Por outro lado é muito relevante o consumo de energia associado à água nas habitações, para aquecimento e usos domésticos. Vamos então analisar a economia circular na componente da energia associada à água, com mais seis oportunidades que devemos avaliar.

 

As entidades gestoras dos serviços de águas podem reduzir o consumo de energia em estações de tratamento e em sistemas de distribuição de água e de saneamento de águas residuais, através da otimização da respetiva operação, permitindo uma significativa redução de custos de operação. Os maiores benefícios conseguem-se em geral na adução de água e no transporte de águas residuais, nos sistemas de arejamento e nos tanques de digestão de estações de tratamento de águas residuais. Para isso os aceleradores regulatórios são a tributação sobre o carbono e os incentivos à utilização de tecnologias de poupança energética. O acelerador de mercado é a imprevisibilidade do aumento e/ou da flutuação dos custos de energia.

 

As entidades gestoras podem produzir eletricidade a partir de sistemas de distribuição, com a utilização de microturbinas em sistemas de adução e eventualmente de distribuição, aproveitando os excessos de pressão, investimento recuperável em poucos anos. Para isso os aceleradores regulatórios são a legislação sobre eficiência energética, os mecanismos de subsidiação, os mecanismos de financiamento e a tributação sobre o carbono. O acelerador de mercado é a imprevisibilidade do aumento e/ou da flutuação dos custos de energia.

 

As entidades gestoras podem produzir calor a partir de sistemas de drenagem, com a instalação de permutadores de calor nos coletores, que representam a maior fonte de perdas de calor nas habitações. A recuperação de calor de água cinzentas também é uma opção, não só porque têm uma temperatura mais elevada, mas porque muitas vezes a reutilização acontece mais perto da fonte, o que significa reter mais calor. Para isso os aceleradores regulatórios são a legislação sobre eficiência energética, os mecanismos de subsidiação, os mecanismos de financiamento e a tributação sobre o carbono. O acelerador de mercado é a imprevisibilidade do aumento e/ou da flutuação dos custos de energia.

 

As entidades gestoras podem produzir energia (gás, eletricidade e calor) a partir de lamas de águas residuais tratadas (biossólidos) geradas nas estações de tratamento. Os processos mais comuns são a pirólise (que produz carvão e gás), a combustão (que produz eletricidade e cinzas), a produção de biogás (usado como combustível para os transportes públicos) e a gaseificação (que produz gás).

 

Todos os biossólidos resultantes destes processos são nutrientes ricos e podem ser usados como fertilizante. A energia produzida pode ser usada tanto para a estação de tratamento ou para venda à rede elétrica. Para isso os aceleradores regulatórios são a legislação sobre a eficiência energética e a tributação sobre o carbono. Os aceleradores de mercado são a imprevisibilidade do aumento e/ou da flutuação dos custos de energia, os custos das soluções alternativas de gestão de lamas e a redução dos custos de aterro pelo desvio das lamas.

 

As entidades gestoras podem produzir a sua própria energia renovável através de turbinas eólicas, painéis solares ou energia geotérmica, em alternativa ou complemento à energia de origem fóssil, reduzindo custos e gerindo melhor a flutuação dos preços da energia na rede. Efetivamente o ideal é um fornecimento híbrido de energia pela rede e em autoconsumo fora da rede (ou seja, produzindo a sua própria energia). Para isso os aceleradores regulatórios são a tributação e os subsídios relacionados com os combustíveis fósseis, bem como a legislação relacionada com a eficiência energética e com a redução de gases com efeito de estufa. O acelerador de mercado é o custo e a disponibilidade de energia renovável face ao custo da energia de combustíveis fósseis.

 

Há ainda que ponderar a conservação e a recuperação de energia nas habitações, pois o aquecimento de água é o maior consumo doméstico de energia, que em boa parte se perde através das águas residuais. Isto pode ser conseguido através de equipamentos mais eficientes, tais como máquinas de lavar e permutadores de calor para chuveiros. As entidades gestoras podem sensibilizar os consumidores e fornecer equipamento, aconselhamento e outros serviços relacionados. A medição inteligente nos consumidores finais pode ser implementado pelas entidades gestoras, promovendo também novas oportunidades de mercado. Para isso o acelerador regulatório consiste em programas obrigatórios de poupança de água. O acelerador de mercado é a imprevisibilidade do aumento e/ou da flutuação dos custos de energia.

 

Abordaremos proximamente a terceira e última vertente de economia circular associada à água, a dos materiais.


Provocação do mês:

 

A economia circular é hoje uma prioridade em todo o mundo. O Fórum Mundial da Água a realizar em Brasília em 2018 identificou o tópico "The circular economy - reduce, reuse, recycle” como uma das sua grandes prioridades. É importante que em Portugal o Plano de Ação para a Economia Circular e o Fundo de Inovação, Tecnologia e Economia Circular não se restrinjam ao setor dos resíduos, mas tenham uma interpretação abrangente. As entidades gestoras dos serviços de águas podem ter um papel importante na economia circular, através do uso mais eficiente da água, da redução do consumo energético e da disponibilização de materiais de valor para o mercado.

 

Jaime Melo Baptista, engenheiro civil especializado em engenharia sanitária, é Investigador-Coordenador do LNEC, Presidente do Conselho Estratégico da PPA e Comissário de Portugal ao 8.º Fórum Mundial da Água 2018. Foi membro do conselho de administração e do conselho estratégico da IWA. Foi presidente da ERSAR (2003-2015), responsável pelo Departamento de Hidráulica (1990-2000) e pelo Núcleo de Hidráulica Sanitária (1980-1989) do LNEC, diretor da revista Ambiente 21 (2001-2003) e consultor. Foi distinguido com o IWA Award for Outstanding Contribution to Water Management and Science.

TAGS: Opinião , Jaime Melo Baptista , água , energia , economia circular
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