Opinião Jaime Melo Baptista (Água): Vamos aumentar o diálogo da água com os outros setores?

22.01.2018

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2016-2030 das Nações Unidas propõem uma agenda global que acabe com a pobreza, promova a prosperidade e o bem-estar, proteja o ambiente e combata as alterações climáticas no mundo. Com eles a água passa a ser reconhecida como uma das prioridades da Humanidade (Objetivo 6), integrando as componentes de serviços de águas, gestão de recursos hídricos e proteção dos ecossistemas. Mas trata-se verdadeiramente de um Objetivo 6+, pois a água é transversal a todos os outros setores, e isso incentiva um diálogo mais alargado.

 

Há que dialogar sobre a contribuição dos serviços de águas para a redução da pobreza e sobre o papel da gestão de recursos hídricos para a redução dos desastres ambientais. Há que dialogar sobre a contribuição da gestão de recursos hídricos para a erradicação da fome, reduzindo secas e inundações que prejudicam a agricultura. Há que dialogar com a saúde, sobre a contribuição dos serviços de abastecimento de águas para a redução de doenças transmitidas por via hídrica e sobre o papel dos serviços de águas residuais para a redução do número de mortes e doenças devidas a poluição da água. Há que dialogar com a educação sobre o seu papel no desenvolvimento de serviços de águas e da gestão de recursos hídricos e sobre a contribuição dos serviços de águas para a criação de emprego. Há que dialogar sobre a contribuição dos serviços de águas para a melhoria da igualdade de género.

 

Temos que dialogar sobre a contribuição do aumento de eficiência dos serviços das águas para a redução do consumo de energia e sobre a contribuição da gestão de recursos hídricos para o aumento da produção de energia hídrica. Temos que dialogar sobre a contribuição dos serviços de águas para o trabalho digno e o crescimento económico, com atividades produtivas, emprego, empreendedorismo, criatividade e inovação, dissociando o crescimento económico da degradação ambiental. Temos que dialogar sobre a adoção de tecnologias e processos industriais limpos e ambientalmente corretos para a melhoria dos recursos hídricos.

 

Temos que dialogar sobre a contribuição dos serviços de águas para a redução das desigualdades, a inclusão social, económica e política da população. Temos que dialogar sobre a contribuição das cidades e comunidades sustentáveis para a urbanização inclusiva, sustentável e resiliente em termos de água e sobre a contribuição dos serviços de águas para infraestruturação, redução de catástrofes urbanas e cidades inteligentes.

 

Devemos dialogar sobre a contribuição da produção e do consumo para a gestão sustentável e o uso eficiente dos recursos hídricos e para a redução da poluição da água pela boa gestão de produtos químicos e resíduos. Devemos dialogar sobre a contribuição da ação climática para a resiliência e a capacidade de adaptação dos serviços de águas e dos recursos hídricos aos riscos relacionados com o clima e as catástrofes naturais. Devemos dialogar sobre a contribuição dos serviços de águas residuais para prevenirem e reduzirem a poluição marítima e assim protegerem a vida marinha. Devemos dialogar sobre a contribuição da gestão de recursos hídricos para a proteção da vida terrestre, a conservação, a recuperação e o uso sustentável de ecossistemas de água doce interiores e para restaurarem os solos afetados por desertificação, secas e inundações. Devemos dialogar com a justiça sobre instituições mais eficazes para a redução da corrupção no setor da água. Devemos dialogar sobre a contribuição das parcerias na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para a melhoria da cooperação Norte-Sul, Sul-Sul e triangular ao nível regional e internacional e o acesso à ciência, tecnologia e inovação, partilhando conhecimento. Devemos dialogar sobre a disponibilidade de dados de qualidade, atuais e fiáveis para o setor da água, e sobre o aumento da capacitação estatística.


Provocação do mês:

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável estão a formatar novas políticas públicas em todo o mundo e estão profundamente interligados uns com os outros, nomeadamente o Objetivo 6+. Estão também a obrigar à redefinição das estratégias de cooperação internacional bilateral e multilateral das entidades de apoio ao desenvolvimento. O sucesso depende da capacidade de abordagem global e integrada dos diversos componentes. Mas temos que reconhecer que muitos dos diálogos anteriormente referidos não existem ou são insuficientes. Vamos convidar todos estes setores para um grande diálogo com a água?

 

Jaime Melo Baptista, engenheiro civil especializado em engenharia sanitária, é Investigador-Coordenador do LNEC, Presidente do Conselho Estratégico da PPA e Comissário de Portugal ao 8.º Fórum Mundial da Água 2018. Foi membro do conselho de administração e do conselho estratégico da IWA. Foi presidente da ERSAR (2003-2015), responsável pelo Departamento de Hidráulica (1990-2000) e pelo Núcleo de Hidráulica Sanitária (1980-1989) do LNEC, diretor da revista Ambiente 21 (2001-2003) e consultor. Foi distinguido com o IWA Award for Outstanding Contribution to Water Management and Science.

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