Opinião João Joanaz de Melo: "Chegou o novo paradigma energético"

01.06.2015

O paradigma energético está a mudar: no futuro, cada um de nós será produtor-consumidor de energia. O fotovoltaico e a armazenagem acessíveis estão aí, mas estamos também perante uma revolução institucional.

 

Notícias recentes indicam que a mudança de paradigma energético, anunciada desde há alguns anos pelos especialistas, está a acontecer agora.

 

O paradigma do século XX é o dos produtores centralizados — grandes termoeléctricas, hidroeléctricas, parques eólicos, campos de petróleo e gás, minas de carvão, refinarias — que abastecem de forma massificada os grandes centros consumidores que são as cidades.

 

O paradigma do futuro é o do sistema energético descentralizado, ligado em rede, onde a inteligência é tão importante como a infra-estrutura, onde cada família e empresa é simultaneamente produtor e consumidor de energia. A fileira onde esta transformação é mais dramática é na electricidade, mas outros sectores estão a evoluir no mesmo sentido.

 

Quatro notícias do último mês simbolizam  a transição do paradigma energético:

 

-          A electricidade fotovoltaica é agora competitiva para auto-produção, graças à rápida redução de custos nos últimos anos. Tudo indica que dentro em pouco o fotovoltaico será igualmente competitivo na electro-produção para o mercado;

 

-          A Tesla lançou há um mês a Powerwall, a primeira bateria doméstica comercial. Ainda que este 1º modelo seja caro para o consumidor comum, torna realista a curto prazo o objectivo estratégico dos edifícios “energia zero”;

 

-          Vários analistas tecnológicos e financeiros, incluindo The Economist, referem que por todo o mundo as energias renováveis (com destaque para o sol, o vento e a biomassa) são hoje economicamente competitivas com as energias convencionais;

 

-          O Fundo Monetário Internacional (insuspeito de preconceitos ecologistas) denunciou que os subsídios aos combustíveis fósseis representarão em 2015, a nível mundial, 5,3 milhões de milhões de dólares (5,3 x 1012 USD), igual a 10 milhões de dólares por minuto — mais que os gastos em saúde de todos os governos do Mundo! O FMI estima que a eliminação deste subsídios reduziria 20% as emissões de CO2.

 

Investimentos em combustíveis fósseis ou produção centralizada perdem competitividade e credibilidade a olhos vistos. Não-soluções como a opção nuclear ou o programa nacional de barragens (economicamente inviáveis, social e ecologicamente danosas), são agora grosseiramente obsoletas e ridículas.

 

Mas seria irrealista pensar que os oligarcas aceitarão a bem ser despojados das benesses que usufruem há décadas; a transição vai ser conflituosa. A legislação nacional já facilita a auto-produção; mas temos ainda pela frente o desafio de acabar com os subsídios perversos nos sectores eléctrico e dos combustíveis, que têm beneficiado as grandes empresas da energia, em detrimento do resto da economia.

 

Atenção, que estas novidades tecnológicas não significam energia barata, apenas energia menos cara e menos controlada pela oligarquia. A forma mais barata de obter energia continua a ser poupá-la: em Portugal temos potenciais de poupança competitivos que atingem 30% do consumo presente.

 

Haja uma política energética digna desse nome, e o potencial de eficiência poderá ser explorado a curto prazo, a custo muito inferior ao de qualquer nova produção. A parte difícil não é mudar as tecnologias, é mudar as mentalidades.

 

Mais que um revolução tecnológica, estas notícias anunciam uma revolução institucional e organizativa. De um sistema energético centralizado, dominado pelos oligopólios da energia (carvão, petróleo, gás e electricidade) está à vista a evolução para um sistema em rede, onde cada um de nós será produtor-consumidor-decisor.

 

João Joanaz de Melo é licenciado e Doutorado em Engenharia do Ambiente e professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Amante da Natureza, activista nas horas vagas, foi fundador e presidente do GEOTA.

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