Opinião João Joanaz de Melo: "O cuidado da casa comum"

16.07.2015

O Papa Francisco publicou recentemente a carta encíclica “Laudato Si': sobre o cuidado da casa comum”. É o documento mais interessante sobre desenvolvimento e sustentabilidade desde o Relatório Brundtland. A ler.

 

No passado dia 18 de Junho de 2015 o Vaticano divulgou a carta encíclica do Papa Francisco Laudato Si', apropriadamente subintitulada “sobre o cuidado da casa comum”. O Papa integra deliberadamente no “cuidado da casa” as dimensões social, ambiental e económica.

 

É um documento notável a vários títulos. Salta de imediato à vista ser a primeira encíclica papal centrada nas questões ambientais; mas o seu alcance é muito mais profundo. As preocupações da Igreja Católica com o Ambiente já têm décadas, e aí não há uma alteração da doutrina, apenas um aprofundamento e actualização. As novidades são outras:

 

-          Pela primeira vez uma encíclica papal é dirigida ao Mundo, e não primariamente à Igreja Católica. O Papa Francisco retoma e amplia a famosa exortação do Papa João XXIII “a todas as pessoas de boa vontade”;

 

-          O Ambiente é tratado na encíclica com uma abrangência, detalhe e solidez científica que surpreenderam mesmo aqueles que já conheciam a preocupação do Papa com esta temática. A encíclica apela especificamente ao diálogo entre ciência e religião;

 

-          O Papa usa uma linguagem frontal e desassombrada, muito invulgar na diplomacia convencional do Vaticano. Fá-lo deliberadamente, transmitindo um inequívoco sentido de importância e de urgência. Declara (escandalosamente, para alguns) que há limites ao crescimento, e que a alteração climática antropogénica é uma evidência emergente do conhecimento científico. Mas não se fica por aí: percorre e relaciona as principais disfunções ecológicas, sociais e económicas, que se ligam estreitamente entre si. Destaca uma ligação que lhe é especialmente cara: a crise ecológica é uma realidade premente, hoje, e afecta principalmente os mais pobres e desprotegidos;

 

-          O Papa identifica de forma contundente os culpados da situação presente: a ganância, a corrupção, a indiferença, a resignação acomodada, o individualismo, o mercado sem regras, as culturas gémeas do consumismo obsessivo, do descarte e da tecnocracia. Em contraponto, o Papa agradece e encoraja todos aqueles que estão a trabalhar em prol da casa comum, seja no domínio ambiental ou na erradicação da pobreza;

 

-          Acima de tudo esta encíclica é uma chamada à responsabilidade e ao trabalho; cada um de nós é parte do problema e da solução, temos de AGIR. O Papa confronta-nos com esta necessidade: é preciso estudar, é preciso reflectir, mas tudo isso é inconsequente sem acção. A expressão usada na encíclica é a “conversão ecológica”. Esta ideia tem um conteúdo profundo, com várias dimensões complementares: o diagnóstico dos erros passados, uma nova filosofia e estilo de vida, uma paixão armada de competência capaz de ultrapassar o “realismo pragmático” estéril; e ainda a necessidade de intervir, não apenas na esfera pessoal, mas também na criação de redes de cooperação, essenciais ao lidar com problemas de elevada complexidade.

 

A encíclica divide-se em 246 parágrafos, organizados em seis capítulos principais: I) O que está a acontecer à nossa casa, II) O evangelho da criação, III) A raiz humana da crise ecológica, IV) Uma ecologia integral, V) Algumas linhas de orientação e acção, e VI) Educação e espiritualidade ecológicas.


Provocação do mês

 

A todos os cidadãos que se preocupam com a nossa “casa comum”: leiam a encíclica Laudato Si´. Toda. É difícil pegar num documento de 192 páginas? Pois é. Mas cuidar da nossa casa comum é ainda mais difícil, e temos de começar por algum lado.

 

João Joanaz de Melo é licenciado e Doutorado em Engenharia do Ambiente e professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Amante da Natureza, activista nas horas vagas, foi fundador e presidente do GEOTA.

TAGS: Opinião , João Joanaz de Melo , encíclipa , Papa Francisco , casa comum , ambiente
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