Opinião Mário Russo: "Taxar os sacos de plástico e a preservação do ambiente"

27.02.2015

Os plásticos são baratos e incrivelmente versáteis e com propriedades que os tornam ideais para muitas aplicações. Mal sabia Charles Goodyear o que aconteceria no futuro ao juntar enxofre à borracha dura tornando-a elástica e durável.

 

Os filmes de plástico, como são os sacos de plástico, muito usados como embalagens, foram recentemente objeto de uma taxação por parte do Governo através da obrigatoriedade dos estabelecimentos comerciais de os vender aos seus clientes a cerca de 10 cêntimos do euro. A medida é tida pelo Ministro do Ambiente como necessária para reduzir a excessiva quantidade que anualmente é despejada no ambiente a partir das superfícies comerciais. Os portugueses abusam deste tipo de saco.

 

O Governo justifica a medida porque pretende reduzir a utilização dos sacos de plástico leve (espessura igual ou inferior a 50 microns) dos atuais  466 por habitante por ano para o máximo de 50 e 35 sacos per capita/ano, em 2015 e 2016, respetivamente. Com esta medida, o Governo espera arrecadar 40 milhões de euros em 2015.

 

Seria uma boa notícia para o ambiente se o Governo não conseguisse arrecadar os tais 40 milhões. Com efeito, o plástico fino e leve, rapidamente estará no ambiente e facilmente será fotodegradado em pequenas partículas inferiores a 5mm, que entram na cadeia alimentar com consequências ainda não totalmente conhecidas para a saúde pública. Os perigos estão associados a exposições através de ingestão, inalação e contato dérmico, considerados importantes rotas de exposição para a população em geral.

 

No ambiente, os plásticos de um modo geral e não apenas os filmes plásticos (de que são feitos os sacos), acabam invariavelmente num meio hídrico e daí no mar, formando ilhas nas calotes polares, causando a morte de milhões de espécies marinhas. Mas no campo também são reportados milhares de mortes por sufoco de gado e de animais selvagens, pois os plásticos facilmente são levados pelo vento para centenas de km da sua origem donde são ingeridos pelo gado ou outros animais selvagens.

 

Os plásticos que flutuam em milhares de rios, lagos e oceanos podem ser indicadores da poluição mais profunda, pois se eles têm capacidade de flutuar, os resíduos (muitos são perigosos) que os acompanhavam não flutuam e depositam-se no fundo dos meios hídricos. Estes plásticos flutuando e em exposição solar longa vão sofrendo fotodegradação e logo se quebram em pedaços cada vez menores até partículas de alguns microns que entram na cadeia alimentar através dos peixes que são utilizados na nossa alimentação. A população ao ingerir alimentos contaminados, está a ingerir componentes orgânicos poluentes, PCBs, pesticidas organoclorados, DDT, cujas consequências são pouco conhecidas e estudadas.

 

O investigador português, Prof. Sobrinho Simões, tem dito que um em três portugueses vai ter um cancro e no futuro a relação será de 1 em 2, e é um problema mundial, que a ciência tranquiliza porque a doença vai ser crónica, ou seja, os seus portadores vão conviver com ela, como acontece hoje com outras maleitas. O que se pergunta é porque isso acontece? Certamente o peso da alimentação, ou melhor, da qualidade dos alimentos terá o seu peso. Se os plásticos são um perigo para a saúde pública porque não os banimos? Seria uma solução radical, mas perigosa.

 

Com efeito, os plásticos são suscetíveis de desempenhar um papel cada vez maior em aplicações médicas, incluindo transplantes de tecidos e órgãos; no fabrico de componentes leves, tais como os utilizados nos novos super aviões da Boeing e da AIRBUS, reduzindo a massa e com isso o uso de combustíveis fósseis nos transportes; componentes para a geração de energia renovável; isolamentos que ajudarão a reduzir as emissões de carbono, bem como a sua aplicação em embalagens de plástico inteligente capazes de monitorar e indicar a qualidade dos produtos perecíveis.

 

No entanto, pese embora os benefícios consideráveis para o futuro que os plásticos podem proporcionar, é evidente que as abordagens atuais para a sua produção, a utilização e a eliminação ainda são pouco sustentáveis. Apesar de termos um conhecimento considerável sobre muitos dos riscos ambientais e suficientes informações sobre os seus efeitos na saúde pública, permanecem muitas incertezas que deveriam ser motivo de reflexão e ação. O objetivo de redução dos plásticos mais perigosos, os leves, pois são difíceis de gerir, é um passo, mas muito tímido quando se taxa, mesmo que possa dissuadir o seu uso.

 

Com efeito, países como a China, Bangladesh, Índia (Nova Deli), Itália e EUA (Califórnia) já baniram os sacos de plástico. Outros, como Portugal, resolveram taxar, como a Irlanda. Se está provado que é uma má solução, deveria ser pura e simplesmente banido. É mais fácil gerir um saco de maior espessura que durará 3 ou 4 anos que o correspondente a mais de 1800 sacos leves e o ambiente agradece.

 

Por isso ficarei muito agradado se verificar que o Governo não arrecada os 40 milhões previstos, pelo sinal de consciência ambiental e cívica demonstrados pelos portugueses. É só começar, porque é uma questão de hábito. Ninguém vai ficar traumatizado por levar os sacos retornáveis ao supermercado para trazer as suas mercadorias.

 

Mário Russo é Doutor em Engenharia Civil pela Universidade do Minho, Mestre em Hidráulica pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, tem Especialização em Microbiologia Ambiental Aplicada pela Universidade do Minho e Mestrado em Estruturas pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Possui ainda o título de International Waste Manager, outorgado pela ISWA (International Solid Waste Association), e é vice-Presidente da APESB (Associação Portuguesa de Engenharia Sanitária e Ambiental). Exerce as funções de professor coordenador no Instituto Politécnico de Viana do Castelo. O autor escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Mário Russo , sacos de plástico
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