Opinião Mário Russo: "Vamos discutir os resíduos numa ótica de recursos?"

14.09.2015

Os resíduos passaram de parente pobre do saneamento a respeitável parente da família. Finalmente o setor deixou de ser visto como aquele que limpa as ruas das cidades. Com efeito, para grande parte das pessoas o problema dos resíduos começa quando se coloca o saco do “lixo” no contentor.

 

Não é apenas a saúde pública que está em causa quando não há gestão adequada dos resíduos que produzem todas sociedades, em maior ou menor escala. É um setor da economia com grandes potencialidades de crescimento, mas também de preocupação.

 

De facto, vem-me à lembrança notícias com grande frequência nos últimos meses sobre o estado lastimoso em que se encontra Luanda, capital de Angola, com lixo por recolher um pouco por todo o lado, com a falência de várias empresas angolanas do setor por falta de pagamentos, notícias da implementação de novos modelos de limpeza urbana, etc. etc., sem que tais medidas surtam efeito.

 

É um exemplo de como terapias erradas decididas por opção política, sem ouvir os técnicos, podem agravar os problemas. Não basta querer, ter o desejo de resolver um problema, é preciso equacionar de modo técnico e financeiro para que tais desideratos possam concretizar-se. Outra opção é puro engano.

 

Tendo em vista discutirem-se de forma aberta esta e outras situações é que Viana do Castelo vai acolher de 14 a 16 de Setembro dois congressos internacionais de resíduos, as 9as Jornadas Técnicas Internacionais de Resíduos (JTIR), evento eminentemente técnico e a 3ª edição da Wastes Solutions, Treatments and Opportunities 2015, um evento eminentemente científico. Os trabalhos decorrem na Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, numa ampla área em que parte das sessões é partilhada.

 

De facto, a política de resíduos da UE, em que os resíduos são considerados cada vez mais fontes de recursos que devem ser valorizados, impõe restrições à deposição de resíduos urbanos biodegradáveis (RUB) em aterros e valores mínimos de valorização dos resíduos de embalagens.

 

Caminha-se assim para uma sociedade europeia da reciclagem e do desperdício zero, potenciando uma nova economia, denominada de economia verde, economia circular, ou ainda de eficiência de recursos, produção e consumo sustentável, simbiose industrial, metabolismo urbano, resíduo-zero, eco-design, prevenção e minimização de resíduos, remanufaturação, etc. Seja qual for o nome, trata-se de um conceito que estará nas próximas décadas consolidado em quase todos os países europeus, fruto de uma abordagem mais sustentável sobre os recursos, com apoio de legislação que obriga ao cumprimento de metas específicas (Towards a Circular Economy: A Zero Waste Programme for Europe (COM(2014) 398 final), e que influenciará outras legislações em outras geografias, designadamente os países de expressão portuguesa de África e o Brasil.

 

Portugal enfrenta um importante desafio no que tange à necessidade de valorização de crescentes quantidades de RUB não admitidos em aterro e de embalagens de diversos materiais, devido às exigentes metas legais. A concretização de tais metas contribuirá para a dita economia circular, ou economia verde, gerando mais emprego e renda e evitando o desperdício de recursos que seriam perdidos em aterros.

 

De facto, geram-se anualmente no mundo mais de 4 biliões de toneladas de resíduos de origem municipal, industrial e perigosos (http://www.unece.org), cabendo aos resíduos municipais cerca de 50% deste total (entre 1,6 e 2 biliões de toneladas por ano).

 

A recuperação de recursos por via da reciclagem já emprega cerca de 12 milhões de pessoas em apenas três países - Brasil, China e Estados Unidos. A triagem e processamento de materiais recicláveis sustentam dez vezes mais empregos do que as operações em aterros ou em incineração, numa base por tonelada (Towards a green economy - UNEP). Estima-se também, que o setor informal dos resíduos utilize cerca de metade das pessoas envolvidas com o tema dos resíduos, ou seja, em número semelhante ao setor formal e respondem por 52% da reciclagem realizada no mundo (19% dos resíduos produzidos).

 

A presente edição das JTIR debruça-se sobre a gestão dos resíduos numa ótica da economia dos recursos, ou das oportunidades para se desenvolver a economia verde, tendo o programa sido organizado com os seguintes temas: Recolha de resíduos e tecnologias de transporte; Transformações químicas e biológicas de resíduos; Reciclagem e recuperação de materiais dos resíduos; Gestão de resíduos industriais e de resíduos de Construção e Demolição; Desafios da Comunicação Ambiental na Gestão de Resíduos; Tecnologia de aterros e nova mineração urbana; Investigação, Desenvolvimento e Inovação na gestão de resíduos; Avaliação de sustentabilidade da gestão de resíduos; Gestão de resíduos nos países da CPLP.

 

É uma oportunidade para os técnicos envolvidos neste setor partilharem ideias e experiências e colherem ensinamentos que tais experiências potenciam. 

 

Mário Russo é Doutor em Engenharia Civil pela Universidade do Minho, Mestre em Hidráulica pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, tem Especialização em Microbiologia Ambiental Aplicada pela Universidade do Minho e Mestrado em Estruturas pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Possui ainda o título de International Waste Manager, outorgado pela ISWA (International Solid Waste Association). Exerce as funções de professor coordenador no Instituto Politécnico de Viana do Castelo. O autor escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Mário Russo , Ambiente Online , resíduos , recursos
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