Opinião Nelson Lourenço: "A nova recolha seletiva"

02.04.2015

A recente notícia de que a autarquia de São Brás de Alportel, em conjunto com a ALGAR, irão proceder à recolha seletiva porta-a-porta de resíduos urbanos com potencial para reciclagem é de louvar e enaltecer. Este projeto-piloto irá iniciar-se em abril e irá cobrir algumas localidades que não se encontram preenchidas por uma rede de recolha seletiva, neste caso, os ecopontos, o que faz com que estes recursos sejam muitas vezes perdidos e/ou abandonados no solo.

 

Contudo, a leitura deve ser igualmente feita na vertente económica e política. Na vertente económica, porque desde há muito que as entidades gestoras têm conhecimento da estagnação da recolha seletiva, sendo esta cada vez menos rentável para quem periodicamente recolhe os recicláveis (matéria-prima) junto dos ecopontos. Na vertente política, porque é necessário criar uma imagem credível junto da população eleitora. 

 

Por não existir recolha de resíduos urbanos ao longo de décadas o solo das habitações das aldeias e zonas rurais portuguesas tem infelizmente funcionado como sumidouro de resíduos urbanos e outros fluxos específicos de resíduos: embalagens, eletrodomésticos, pilhas e acumuladores, etc., causadores de contaminação por metais pesados e outros micropoluentes emergentes, com danos a nível ambiental e na saúde pública.

 

É grande a probabilidade de que os autarcas portugueses e as próprias entidades gestoras não tenham conhecimento desta realidade e do impacte ambiental exercido por estes atos nestas zonas rurais, devendo ser criados mecanismos e iniciativas que permitam, numa primeira fase, a remoção destes resíduos e, numa segunda fase, a remediação desses mesmos solos.

 

Ganham-se votos, imagem pública e social, mas ganha sobretudo o ambiente. Esta medida da ALGAR e da autarquia local também contribuirá para erradicar a deposição de resíduos nos solos rurais, sobretudo pelas populações locais.

 

Nelson Lourenço é Engenheiro do Ambiente, Mestre em Gestão Sustentável dos Espaços Rurais, Formador e Doutorando em Ciências e Tecnologias do Ambiente. É Director-geral da FUTURAMB e especialista em Vermitecnologia. Possui vários anos de experiência na utilização de espécies autóctones de minhocas no desenvolvimento de programas, processos e tecnologias para a resolução de impactes ambientais a nível da sociedade e dos ecossistemas provocados pelos resíduos orgânicos e águas residuais. Concentra a sua actividade na gestão e tratamento de resíduos orgânicos, gestão e tratamento de águas residuais, agricultura orgânica e biologia e ecologia de minhocas. O autor escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: opinião , Nelson Lourenço , resíduos urbanos , recolha seletiva
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