Opinião Nelson Lourenço: "Os instrumentos económicos no setor dos resíduos"

07.05.2015

O setor dos resíduos representa talvez aquele que mais necessita de instrumentos económicos para que redundem em mais-valias ambientais. Vem esta afirmação a propósito da Reforma da Fiscalidade Verde que tanta polémica e mal-estar têm criado no cidadão comum.

 

Durante uma deslocação a uma conhecida superfície comercial, e enquanto me encontrava na fila para pagar e realizava o respetivo pagamento na caixa, não pude deixar de reparar na alteração transcendente dos hábitos das famílias que ali se deslocam.

 

De facto, durante os cerca de 5 minutos em que ali me encontrei, não pude deixar de notar que todos os clientes vinham “munidos” de sacos para compras. Algo que durante anos me foi particularmente fácil de praticar como sendo parte de um mero quotidiano, para estas famílias esta alteração de hábitos pura e simplesmente se deveu a razões económicas.

 

Acaba por ser este o grande objetivo dos instrumentos económicos a nível ambiental: mudança de hábitos dos cidadãos, promoção da qualidade ambiental, cumprimento de diretivas comunitárias e geração de receita.

 

Esta última, deveria em todo o caso, ser canalizada para recuperação de sinistros ambientais, o que tudo leva a crer que nem sempre sucede, infelizmente.

 

Mas o cerne da questão é este: encontramo-nos assim tão atrás no tempo para que os instrumentos económicos tenham de chegar ao ponto de levar a mudanças de hábitos ganhas nas últimas 3 a 4 décadas? Não. Avançámos no tempo, mas não soubemos, enquanto país, utilizar os meios tecnológicos, nem com o devido conhecimento, nem com o devido propósito. Para alguns, com o regresso dos sacos de pano, recuámos ao tempo dos nossos avós. Regredimos? Não, evoluímos!

 

Os resíduos continuam a não gerar impactes imediatos na vida quotidiana dos portugueses. Pelo menos, a perceção que o comum cidadão tem é o de que a capacidade de carga do território é infinita. Exige-se que o princípio do poluidor-pagador seja um princípio de verdade e não um mero princípio de gaveta.

 

Nelson Lourenço é Engenheiro do Ambiente, Mestre em Gestão Sustentável dos Espaços Rurais, Formador e Doutorando em Ciências e Tecnologias do Ambiente. É Director-geral da FUTURAMB e especialista em Vermitecnologia. Possui vários anos de experiência na utilização de espécies autóctones de minhocas no desenvolvimento de programas, processos e tecnologias para a resolução de impactes ambientais a nível da sociedade e dos ecossistemas provocados pelos resíduos orgânicos e águas residuais. Concentra a sua actividade na gestão e tratamento de resíduos orgânicos, gestão e tratamento de águas residuais, agricultura orgânica e biologia e ecologia de minhocas. O autor escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , resíduos , Nelson Lourenço
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