Opinião Nuno Campilho (Água): "Embolia gasosa"

15.04.2015

Aqui há dias, os meus filhos diziam-me que o Jackie Chan tinha tido uma embolia gasosa. E eu pensei, cá para mim: “que raio é que os miúdos estão a dizer??”. Ainda por cima, dois “fedelhos” com 10 e 6 anos cada um! Bem... como a ignorância é um dos males da humanidade e o saber não ocupa lugar, lá fui detetar que uma embolia gasosa é a obstrução dos vasos sanguíneos por bolhas de ar na corrente sanguínea, geralmente decorrentes da expansão do ar nos pulmões, com a diminuição da pressão, durante a subida à superfície depois de um mergulho. A embolia gasosa pode manifestar-se por dispneia súbita (dificuldade em respirar, acompanhada por uma sensação de mal-estar), ansiedade, tonturas, náuseas, ou dor retro esternal. Sinais neurológicos como confusão,obnubilação (sintoma caracterizado por deslumbramentos ou ofuscações) e perda da consciência, podem ocorrer imediatamente.

 

Eles viram isto no episódio 8, da temporada 3, das “Jackie Chan Adventures Clash”, intitulado “Titanic”. Eu vi isto, na recém aprovada, pelo Conselho de Ministros, reestruturação do sector da água, mas já lá vamos... à analogia, quero eu dizer.

 

Ora bem, esta propalada reforma irá agregar, tal como estava previsto, as 19 empresas do grupo Águas de Portugal em cinco empresas regionais; a empresa Águas de Lisboa e Vale do Tejo, que vai desde a capital até ao interior centro (do Cabo da Roca, até à Serra da Estrela, como eu costumo dizer... assim é fácil fazer coesão territorial), juntando oito sistemas multimunicipais e de abastecimento de água e saneamento: Águas do Zêzere e Coa, Águas do Centro, Águas do Oeste, SIMTEJO, SANEST, EPAL, SIMARSUL, Águas do Norte Alentejano e Águas do Centro Alentejo, e que ficará sediada na Guarda; a empresa Águas do Norte, que agrega quatro sistemas multimunicipais de abastecimento de água e saneamento (SIMDOURO, Águas do Douro e Paiva, Águas do Noroeste, Águas de Trás os Montes e Alto Douro), e que ficará sediada em Vila Real; a empresa Águas do Centro Litoral, que agrega três entidades gestoras (SIMLIS, Águas do Mondego e SIMRIA), e que ficará sediada em Coimbra. Depois, ainda há o Alentejo e o Algarve...

 

E, então? Perguntarão vós... Bem, eu não sei, mas, também pergunto eu, como é que o Governo e o presidente das Águas de Portugal (o Deus ex machina do ministro do Ambiente) insistem numa solução inexequível? Como é que se fundem sistemas multimunicipais, num novo sistema, que depende desses sistemas para funcionar, se esses sistemas não querem aderir? Até quando os protagonistas desta obra ficcional vão insistir em que está tudo bem e que é para avançar e que é para fazer, quando alguns dos principais protagonistas desta "história" – os municípios – pedem para que os tirem deste "filme"? Agora que o Governo decretou (porque prefere impor do que negociar), o que é que vai acontecer? A SANEST, por exemplo, fecha as entradas do intercetor geral? E as águas residuais rejeitadas por mais de 800 mil pessoas vão para onde? Ou será que o Governo também decretará, tomando posse administrativa do capital dos municípios acionistas da SANEST e os constitui como clientes/utentes/aderentes do sistema e ainda os põe a pagar o serviço? Pois bem, agora que a reestruturação foi aprovada/forçada, os sucessivos recursos (providências cautelares?) poderão ser a resposta a algumas destas perguntas. Ou será que só um novo governo, ou uma descompressão numa câmara isobárica poderá ser a solução?

 

O que é que estamos perante, quando detetamos “sinais neurológicos como confusão, obnubilação (sintoma caracterizado por deslumbramentos ou ofuscações) e perda da consciência”? Eureka... estamos perante uma embolia gasosa! Perceberam agora, a analogia?

 

Se não perceberam, eu ponho o Ministro, em discurso direto, a explicar o que é obnubilaçãoconfusão e perda de consciência, senão, vejamos: “Há uma arrogância de alguns autarcas e gestores, alguma sobranceria em relação ao interior que considero inaceitável (ndr: deslumbramento). É fácil gerir alguns sistemas no litoral (ndr:ofuscação... não lhe explicam...), difícil mesmo é conseguir compatibilizar os ganhos de eficiência com a coesão territorial (ndr: e em que é que o municípios – e os munícipes, utentes – contribuíram, para os erros de sucessivos governos?). Há uma larguíssima maioria da população que enfrentará aumentos nas tarifas... (ndr: confusão?). Não existe esbulho. Por exemplo, os municípios da SANEST, onde estão autarquias do PS, e também do PSD, vão beneficiar de 64 milhões de euros de investimentos nos próximos anos (ndr: lamento... eu até tenho estima por ele, mas estamos perante uma nítida perda de consciência)”. E quem beneficiará dos mais de 80 milhões de euros de investimento na nova ETAR da Guia, que fez disparar as tarifas, “engordando” um sistema, pronto para a “matança” agora anunciada??

 

Que Deus nos livre, mas não o ex machina (solução inesperada, improvável e mirabolante para terminar uma obra ficcional) senão ainda vai tudo ao fundo, como o Titanic!

 

Nuno Campilho é licenciado em Relações Internacionais pela Universidade Lusíada e Pós-graduado em Comunicação e Marketing Político e em Ciência Política e Relações Internacionais. Possui ainda o Executive MBA do IESE/AESE. É presidente da União das Freguesias de Oeiras e São Julião da Barra, Paço de Arcos e Caxias e consultor especializado em modelos de gestão de serviços públicos de água e saneamento. Foi administrador dos SMAS de Oeiras e Amadora e chefe de gabinete do Ministro do Ambiente Isaltino Morais. O autor escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Nuno Campilho , reestruturação do sector da água
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