Opinião Rui Berkemeier (Resíduos): Os incríveis dados sobre resíduos urbanos para 2014

11.05.2016

A APA divulgou o Relatório sobre os Resíduos Urbanos para 2014 (RARU 2014), o qual contém vários dados inacreditáveis, que não se compreende como é que constam neste relatório sem terem sido sujeitos a uma devida correção.

 

Em primeiro lugar, o relatório assume que todos os resíduos orgânicos (restos de comida, verdes e papel/cartão) que entram em unidades de Tratamento Mecânico e Biológico (TMB) são valorizados organicamente. Esta premissa é um erro técnico grave, uma vez que os rejeitados dos TMB têm na sua composição cerca de 40% de resíduos orgânicos, ou seja há muitos resíduos orgânicos que entram no Tratamento Mecânico, mas acabam por não entrar no Tratamento Biológico, pelo que não são valorizados organicamente. Este é aliás um erro que também consta do PERSU 2020 e que urge corrigir.

 

No caso dos dados relativos ao balanço de massas dos TMB da ERSUC, no RARU 2014 verifica-se mais uma vez que esses dados não foram corrigidos, uma vez que como já foi várias vezes demonstrado, não é crível que a ERSUC envie para Tratamento Biológico 194155 toneladas de resíduos orgânicos e tenha apenas produzido 5033 toneladas de composto e uma baixíssima taxa de produção de biogás.

 

Mais estranho ainda, é o facto de este relatório referir que a Tratolixo enviou para TMB apenas 5196 toneladas de resíduos urbanos e que dessas toneladas produziu 5767 toneladas de composto, o que é naturalmente impossível. Pelo que se percebe, o RARU 2014 não contabilizou no TMB da Abrunheira os resíduos orgânicos que vieram do TM de Trajouce, o que é um erro de palmatória.

 

Aliás, só com este erro se compreende que este relatório refira que a taxa de reciclagem da Tratolixo é de apenas 14%, quando este sistema de gestão de resíduos urbanos efetivamente recicla 51% dos seus resíduos recicláveis, ou seja grande parte dos seus resíduos orgânicos, para além de proceder à recolha seletiva de recicláveis e à triagem de recicláveis no seu TM de Trajouce.

 

Finalmente, o relatório apresenta para a Resitejo um valor de recuperação de recicláveis no seu TM de 23049 toneladas, quando neste TM apenas entraram 101016 toneladas de resíduos urbanos indiferenciados. Assim, assume-se uma taxa de recuperação de cerca de 23% de recicláveis, quando é sabido que os sistemas mais otimizados - o que não é o caso - dificilmente atingem os 10%.

 

Para além disso, como não recupera nem papel/cartão, nem vidro, o TM da Resitejo praticamente só recupera plástico e algum metal o que constitui menos de 10% dos resíduos que chegam a este TMB, pelo que para atingir os 23% de taxa de recuperação, teria de recuperar 100% do plástico e metal e ainda ficaria por justificar onde foi obter os restantes 13%.

 

Em resumo, o RARU 2014 tem demasiados erros elementares, pelo que o bom senso aconselha a que este seja urgentemente corrigido e retirado da internet até os números baterem certo.

 

Provocação do mês: O recente relatório sobre resíduos perigosos (RP), divulgado pelo Ministério do Ambiente, refere que em 2014 foram produzidas 478 mil toneladas de RP. Sabendo que nesse ano os CIRVER receberam 196 mil toneladas e que foram exportadas 56 mil toneladas de RP, alguém sabe explicar onde estão as restantes 226 mil toneladas de resíduos perigosos?

 

Rui Berkemeier é Engenheiro do Ambiente licenciado pela FCT/UNL e Coordenador do Centro de Informação de Resíduos da Quercus desde 1996 acompanhando as políticas nacionais de gestão de resíduos. Foi Chefe de Sector de Ambiente da CM das Ilhas em Macau (1992-1996) na Gestão de Resíduos e Educação Ambiental e Técnico Superior da Direcção de Serviços de Hidráulica do Sul em Évora (1988-1992) na área de Controle da poluição hídrica e extracção de inertes. O autor escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Rui Berkemeier , resíduos , relatório , 2014
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